Ninguém Conta Essa Verdade Sobre Ser Pai ou Mãe
- Deivede Eder Ferreira

- 9 de dez. de 2025
- 6 min de leitura
Como o amor parental se perde — ou se revela — em meio a conflitos judiciais.
Este artigo é assinado por Deivede Eder Ferreira, autor disponível na Amazon em https://www.amazon.com.br/stores/author/B0BZM6LHMH Há perguntas que nascem de um ponto tão profundo da alma que não se contentam com respostas simples. Elas exigem coragem — a coragem de olhar para si mesmo, para as feridas mais íntimas, para o que se gostaria de esconder sob slogans de amor, cuidado ou direitos parentais. Entre todas elas, talvez nenhuma doa tanto quanto esta:
“Amar seria aceitar que o meu filho está melhor com o outro genitor?”
A pergunta atravessa a carne porque desloca o amor de seu lugar cômodo — o lugar onde amar significa ter, possuir, manter ao lado. Freud foi preciso quando disse, em 1914, que “o amor de um pai pela criança é, no fundo, a revivência de seu próprio narcisismo”. Ou seja, o amor parental é sempre atravessado pela sombra do ego. Amar o filho é, também, amar aquilo de nós que vemos refletido nele.
E é justamente aí que nasce a dor: porque reconhecer que o filho está melhor com o outro genitor exige admitir que o reflexo que o nosso ego desejava não é o reflexo que a realidade devolve.
Mas é neste ponto — e só neste ponto — que o amor começa.
I. O AMOR QUE NÃO É POSSE, MAS RESPONSABILIDADE
Quando Winnicott escreveu que “não existe bebê sem um cuidador”, ele não falava apenas da dependência material da criança, mas da dependência emocional, simbólica, afetiva. A criança se constrói no colo que a segura, nas palavras que a nomeiam, no ambiente que a sustenta.
O equívoco dos adultos, porém, é acreditar que a legitimidade do cuidado vem da biologia ou do desejo. Não vem. Vem da capacidade de oferecer estabilidade.
E estabilidade, no mundo infantil, não se mede por ideologias ou discursos; mede-se por rotina, previsibilidade, afeto confiável, ausência de medo, ausência de tensão.
É justamente aqui que muitos pais e mães caem na armadilha narcísica: confundir o desejo de estar com o filho com a capacidade real de ser o melhor ambiente para ele naquele momento da vida.
O amor imaturo pergunta:“ Por que ele não está melhor comigo?”
O amor maduro pergunta: “Onde ele está melhor?”
E essa diferença — aparentemente sutil — é o que separa a posse do amor.
II. A FERIDA NARCÍSICA: QUANDO O ADULTO NÃO SUPORTA A VERDADE
Lacan observou que “o amor é dar o que não se tem”. Dar o que não se tem é dar espaço. É dar renúncia. É dar o reconhecimento de que o outro — neste caso, a criança — tem um destino que não se curva aos desejos do adulto.
Mas para muitos pais e mães isso é insuportável.
Não suportam:
ver o filho regulado com o outro;
ver a criança sorrir em um ambiente que não foi criado por eles;
ver o laço afetivo florescer sem sua presença;
admitir que o melhor cuidado não nasce necessariamente de quem mais sofre, mas de quem mais sustenta.
Para estes adultos, o bem-estar do filho aciona inveja, não alegria. Aciona competição, não gratidão. Aciona ressentimento, não maturidade.
E é por isso que a pergunta “onde meu filho está melhor?” é tão difícil: porque ela não é dirigida à criança, mas ao espelho narcisista do adulto.
A resposta nunca vem do filho. A resposta vem da honestidade — ou da falta dela — do genitor.
III. O PARADOXO DO AMOR MADURO: PERDER PARA QUE O FILHO GANHE
Freud escreveu em O Mal-Estar na Civilização que a parentalidade exige “renúncias pulsionais”, sacrifícios do eu em nome da sobrevivência da cultura. Mas há renúncias que não se fazem pela civilização — fazem-se pelo filho.
E uma delas é aceitar que o melhor lugar para a criança pode, sim, ser o colo do outro genitor.
Esse é o paradoxo: O amor verdadeiro não vence; ele cede. Não disputa; ele protege. Não reivindica; ele escuta.
É doloroso porque toca na ferida da insuficiência: “Se meu filho está melhor com o outro, então eu falhei?”
Mas essa é a pergunta errada. A pergunta certa é: “Se eu reconheço que ele está melhor com o outro, então eu o amo?”
E a resposta é: Sim. Esse reconhecimento é uma das expressões mais altas do amor parental.
Dolto dizia que a criança sente tudo, mesmo o que não compreende. Ela sente quando é usada como bandeira de guerra. Sente quando vira troféu. Sente quando sua estabilidade é sacrificada para preservar o orgulho ferido de um adulto.
E sente, profundamente, quando é respeitada como sujeito.
A criança sabe onde está melhor. O adulto maduro admite isso. O adulto ferido combate.
IV. A IMATURIDADE EMOCIONAL COMO TRAGÉDIA PARENTAL
Não há nada mais perverso, embora quase sempre inconsciente, do que instrumentalizar uma criança em uma disputa emocional.
Quando o adulto não suporta a ideia de que o filho está melhor com o outro, ele faz coisas que, embora aparentemente pequenas, sabotam a segurança da criança:
cria expectativas irreais;
sugere mudanças abruptas (“você pode ir para outra escola”, “pode morar comigo qualquer dia”);
provoca confusão emocional;
lança dúvidas sobre a rotina que o outro genitor construiu;
desestabiliza para depois tentar “recolher” a criança ferida, como se provasse sua necessidade.
Dolto chamou isso de “violência simbólica através da palavra”.A criança não entende, mas sente que algo ali está errado.
O adulto que não consegue aceitar que o filho está melhor com o outro não está lutando pelo filho — está lutando contra a própria insuficiência interna.
E, nesse embate, a criança vira território.
V. O QUE FAZ UM ADULTO CAPAZ DE RENUNCIAR?
Freud escreveu que a maturidade emocional depende de duas capacidades:
amar,
trabalhar.
Mas amar, na psicanálise, não é sentimentalismo: é suportar perda.
A renúncia de que falamos aqui é essa: a capacidade de perder um certo lugar na vida da criança — não o amor dela, não o vínculo — mas a centralidade, a primazia, a presença diária, em nome da saúde emocional dela.
Winnicott descreveu isso como “a capacidade de estar só na presença do outro”:a criança consegue existir como sujeito independente, e o adulto consegue existir sem ter sua identidade definida pela dependência da criança.
O adulto que renuncia por amor:
não some,
não abandona,
não se inferioriza,
não perde valor afetivo.
Ele apenas compreende que amor não se mede por proximidade, mas por adequação.
Há momentos em que o melhor lugar para a criança é o outro. E aceitar isso é um gesto de grandeza.
VI. A CRIANÇA COMO SUJEITO, NÃO COMO PROVA DE AMOR
A psicanálise insiste: a criança é sujeito, não propriedade.
Ela não valida o adulto; ela é validada pelo ambiente.
Freud advertiu diversas vezes que os pais projetam nas crianças seus próprios conflitos, desejos e carências narcísicas. Quando isso acontece de forma inconsciente e descontrolada, cria-se o que ele chamou de “perturbação da vida amorosa dos pais refletida no desenvolvimento da criança”.
Ou seja, quando o adulto usa a criança para reparar o próprio passado, a criança adoece.
Dolto reforça: A criança sofre quando percebe que precisa se sacrificar para que o adulto não desmorone.
Neste sentido, o ato de aceitar que o filho está melhor com o outro genitor não é um gesto de fraqueza, mas de proteção. Protege-se a criança do peso psíquico de carregar nas costas a fragilidade de um adulto.
VII. O AMOR QUE SE DES-CENTRA: A MAIOR PROVA DE MATURIDADE
Reconhecer que o filho está melhor com o outro genitor é um ato de descentralização.
O adulto deixa de ser o sol e passa a ser órbita — apoiando, sustentando, iluminando sem exigir centralidade.
Isso não retira amor; amplia-o.
O adulto ferido quer ser o centro. O adulto maduro quer que a criança tenha centro — mesmo que não seja ele.
Freud dizia que o ego precisa aprender a perder, e que parte da maturidade é suportar que o mundo continue girando quando o nosso desejo não é atendido.
A criança, ao perceber essa maturidade, floresce. Porque ela entende que não precisa escolher lados, nem carregar a culpa por estar bem com o outro. Ela ganha liberdade para amar ambos sem medo.
E isso — essa liberdade psíquica — é um dos maiores presentes que um genitor pode oferecer.
VIII. CONCLUSÃO: SIM, AMAR É ACEITAR QUE O FILHO ESTÁ MELHOR COM O OUTRO — QUANDO ISSO É VERDADE
A pergunta que deu origem a este texto não é simples, mas a resposta é clara:
Sim. Amar é aceitar que o filho está melhor com o outro genitor — quando essa é, de fato, a realidade da criança.
Não porque o outro seja melhor. Não porque o adulto renunciante seja pior. Mas porque o amor não é posse, controle ou reivindicação.
O amor é cuidado. O amor é renúncia. O amor é ética. O amor é maturidade afetiva.
Freud, Winnicott, Lacan e Dolto convergem em um ponto: o adulto saudável é aquele que suporta a própria dor para não ferir a criança.
E é justamente isso que torna a renúncia um ato de amor. Não é perder. É entregar — entregar à criança aquilo de que ela mais precisa: um mundo que não a obrigue a sustentar feridas que não são dela.
Quando o adulto diz:
“Onde você estiver melhor, é onde eu quero que você esteja.”
— então ele amou verdadeiramente.
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