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O que acontece na primeira sessão de psicanálise?

26 de ago.
14 min de leitura
Pessoa entra em consultório com duas poltronas enquanto fragmentos se transformam em linhas, simbolizando primeira sessão de psicanálise, fala e escuta.

“Por onde eu começo?” Essa é uma das perguntas mais comuns antes de uma primeira sessão de psicanálise. Algumas pessoas ensaiam mentalmente o que vão dizer, tentam ordenar a própria história ou se preocupam em não ter um problema “grave o bastante”. Outras imaginam que permanecerão em silêncio diante de alguém que apenas observa, ou que precisarão revelar imediatamente os acontecimentos mais íntimos da vida.


Na primeira sessão de psicanálise, a pessoa pode falar sobre o que a levou a procurar ajuda, enquanto o analista começa a escutar a queixa, a história, as expectativas e a maneira singular como aquele sofrimento é narrado. Também podem ser combinados aspectos do enquadre, como frequência, horários, modalidade, honorários, confidencialidade e política de cancelamento. Não é preciso chegar com tudo organizado, saber o diagnóstico ou contar toda a vida em um encontro.


A primeira sessão não segue um roteiro universal. Alguns analistas fazem mais perguntas; outros oferecem maior espaço para a fala espontânea. Algumas pessoas chegam com uma situação urgente e bem definida; outras encontram apenas uma sensação de que algo não vai bem. O encontro serve para iniciar uma investigação e avaliar se existem condições para um trabalho conjunto, não para produzir uma explicação definitiva em cinquenta minutos.


O que você precisa falar na primeira sessão?


Você pode começar pelo que tornou a busca necessária agora. Pode ser uma crise recente, uma repetição nos relacionamentos, ansiedade, luto, dificuldades no trabalho, conflitos familiares, sintomas físicos já avaliados, uma decisão difícil ou uma angústia que ainda não possui nome. “Não sei explicar por que vim” também é um começo legítimo.


Não existe uma sequência obrigatória. A infância não precisa ser o primeiro assunto, e ninguém deve ser pressionado a revelar experiências para as quais ainda não encontrou palavras ou confiança. Se um tema parecer importante, mas difícil de abordar, é possível dizer exatamente isso: “há algo que ainda não consigo contar”. A forma de hesitar, selecionar, esquecer ou mudar de assunto também pode adquirir sentido ao longo do processo, sem ser tratada como falha.


Algumas informações práticas ajudam o analista a compreender a situação e avaliar necessidades de cuidado. Dependendo do contexto, ele poderá perguntar sobre atendimentos anteriores, uso de medicamentos, condições médicas, alterações importantes de sono ou alimentação, consumo de substâncias e presença de risco imediato. Perguntar não é preencher um interrogatório padronizado; é uma responsabilidade clínica diante da singularidade e da segurança da pessoa.


O paciente também pode fazer perguntas. Formação, método de trabalho, valor, frequência, modalidade presencial ou on-line, regras de contato e manejo de urgências não são assuntos inconvenientes. Clareza sobre as condições do atendimento faz parte do consentimento para iniciar.


Você não precisa organizar a própria história antes de chegar


Muitas pessoas acreditam que precisam apresentar uma autobiografia coerente para “aproveitar” a sessão. Essa preparação pode reduzir a ansiedade, mas não é requisito. A fala humana não acontece apenas por ordem cronológica. Um acontecimento recente pode lembrar uma cena antiga; uma palavra aparentemente lateral pode tocar o centro de um conflito; um silêncio pode aparecer quando a narrativa se aproxima de algo difícil.


O analista não avalia a qualidade de uma apresentação. Ele escuta o que é dito, as palavras escolhidas, as contradições, os deslocamentos, os afetos e os pontos nos quais a fala perde continuidade. Isso não significa atribuir um significado secreto a cada detalhe. Significa não reduzir a experiência ao resumo mais lógico ou socialmente aceitável.


Se a pessoa preparou anotações, pode usá-las. Se não preparou nada, pode começar pela sensação daquele momento. Se fala muito, isso também pode ser escutado; se responde em poucas palavras, não é automaticamente resistência. A primeira tarefa não é corresponder a um modelo de “bom paciente”, mas participar de um encontro no qual seja possível construir perguntas.


Associação livre: falar sem precisar entregar uma versão perfeita


A associação livre é uma regra fundamental do método psicanalítico. Em termos simples, é o convite para dizer o que vier à mente, inclusive pensamentos que pareçam irrelevantes, repetitivos, contraditórios, embaraçosos ou pouco razoáveis. Não se trata de falar sem qualquer limite nem de produzir um fluxo contínuo. Trata-se de reduzir, quando possível, a censura que transforma a fala em relatório cuidadosamente editado.


Na prática, ninguém associa de maneira totalmente livre. Vergonha, medo de julgamento, desejo de agradar, necessidade de controle e dificuldade de confiar participam do encontro. Esses limites não anulam o método; tornam-se parte do material a ser compreendido. Uma pessoa pode perceber que evita mencionar raiva, pede desculpas por chorar ou tenta oferecer a explicação que imagina ser a “certa”.


Freud associou o nascimento da psicanálise ao abandono da hipnose e à introdução da associação livre. Em Sobre o início do tratamento, de 1913, ele comparou as orientações técnicas às aberturas do xadrez: é possível formular alguns princípios, mas a diversidade do que acontece depois impede a mecanização completa da prática.


Essa comparação continua útil. Associação livre não é um comando que produz automaticamente acesso ao inconsciente. É uma direção de trabalho sustentada por tempo, confiança e escuta. Na primeira sessão, pode aparecer apenas como autorização: você não precisa tornar a história mais elegante do que ela é.


Da queixa inicial à construção de uma demanda


A queixa é aquilo que a pessoa apresenta como problema: “não consigo dormir”, “escolho sempre o mesmo tipo de relação”, “não aguento mais o trabalho”, “quero parar de sentir ansiedade”. Ela merece ser recebida com seriedade, mas não esgota necessariamente a questão clínica.


Demanda, na linguagem psicanalítica, não é simplesmente um pedido formal de tratamento. É o modo como o sujeito dirige um pedido ao outro e o lugar que espera que esse outro ocupe. Alguém pode pedir uma resposta pronta, uma autorização para decidir, uma confirmação de que tem razão, uma cura sem mudança ou apenas um espaço no qual não precise cuidar de todos.


O analista não recusa a queixa para procurar uma verdade mais sofisticada. Ele começa por ela e escuta como o sofrimento está organizado. A pergunta “por que agora?” pode revelar o acontecimento que rompeu um equilíbrio anterior. “O que você espera deste trabalho?” ajuda a tornar visíveis expectativas, inclusive a fantasia de que o analista eliminará toda incerteza.


A demanda não precisa estar pronta na primeira conversa. Ela pode ser construída quando a pessoa deixa de falar apenas do que os outros deveriam mudar e começa a se perguntar sobre sua posição, seus desejos, seus limites e as respostas que repete. Isso não significa culpá-la pelo que sofreu. Responsabilidade subjetiva é diferente de culpa e nunca absolve abuso, violência ou desigualdade real.


Como o psicanalista escuta?


Escutar clinicamente não é permanecer passivo, confirmar tudo nem procurar rapidamente uma solução. O analista acompanha o conteúdo e a forma da fala: o que se repete, o que produz afeto, como os acontecimentos são ligados, que posições a pessoa assume e que expectativas aparecem na relação.


Freud chamou de atenção flutuante a disposição do analista de não selecionar previamente um único elemento como o mais importante. Em vez de ouvir apenas para encaixar o relato em um diagnóstico ou conselho, o profissional tenta manter abertura para conexões que ainda não são evidentes.


Isso não significa ausência de conhecimento técnico. A escuta é informada por teoria, experiência clínica, análise pessoal e supervisão. O rigor aparece justamente na capacidade de não aplicar um conceito pronto antes de compreender o caso. Duas pessoas podem usar a palavra “ansiedade” e estar falando de experiências, conflitos e riscos profundamente diferentes.


O analista pode perguntar, pontuar uma palavra, retomar uma contradição, pedir que a pessoa fale mais sobre algo ou permanecer em silêncio por algum tempo. Uma interpretação, quando acontece, deve funcionar como hipótese que abre associações, não como revelação infalível sobre a vida alheia.


Por que o analista pode ficar em silêncio?


O silêncio do analista é uma das maiores fontes de ansiedade para quem imagina a primeira sessão. Ele pode oferecer espaço para que a pessoa prossiga sem ser conduzida a cada frase. Pode também permitir que um afeto seja percebido antes de ser rapidamente coberto por explicações.


Mas silêncio não é regra absoluta nem prova de competência. Um silêncio prolongado e sem manejo pode ser vivido como abandono, julgamento ou indiferença. Na primeira sessão, o profissional precisa considerar o estado da pessoa, sua capacidade de sustentar aquele espaço e o que está acontecendo na relação.


O paciente pode perguntar: “você espera que eu continue?” ou dizer: “quando você fica em silêncio, sinto que falei algo errado”. Essa observação não interrompe o tratamento; ela oferece material sobre o encontro. A forma como o analista responde também ajuda a avaliar se existe possibilidade de trabalho conjunto.


Que perguntas podem aparecer na primeira sessão?


Não existe um questionário único, mas algumas perguntas são frequentes:


  • o que motivou a procura neste momento;

  • há quanto tempo o sofrimento está presente e como afeta a vida cotidiana;

  • o que a pessoa já tentou fazer e que atendimentos realizou;

  • como estão sono, alimentação, trabalho, estudo e relações importantes;

  • existem condições médicas, medicamentos ou uso de substâncias relevantes;

  • houve pensamentos de morte, risco de autoagressão ou violência;

  • o que a pessoa espera da análise;

  • quais são suas possibilidades de horário e frequência.


Perguntas sobre segurança não significam que o analista presumiu um diagnóstico. Elas ajudam a decidir se a psicanálise é indicada naquele momento, se precisa ser articulada com atendimento médico ou psiquiátrico ou se a prioridade é uma intervenção de urgência.


O paciente não é obrigado a saber todas as respostas. Pode pedir esclarecimento, dizer que não se lembra ou que ainda não deseja falar sobre determinado ponto. Em situações de risco, porém, o profissional precisa fazer uma avaliação mais direta e orientar a busca de proteção adequada.


O que é o enquadre analítico?


Enquadre é o conjunto de condições que oferece continuidade ao trabalho. Ele inclui horário, duração aproximada das sessões, frequência, honorários, formas de pagamento, regras para faltas e cancelamentos, períodos de férias, modalidade de atendimento, canais de contato e princípios de confidencialidade.


Esses acordos não são burocracia externa à análise. A regularidade cria um espaço previsível no qual a fala pode se desenvolver. Ao mesmo tempo, cada elemento pode adquirir sentidos afetivos: pagar pode despertar culpa ou dívida; um limite de horário pode ser vivido como rejeição; férias podem mobilizar sentimentos de abandono. A dimensão simbólica não elimina a necessidade de contratos claros.


O Código de Ética da International Psychoanalytical Association afirma que condições financeiras devem ser informadas e acordadas antes do início da análise. O mesmo código destaca a confidencialidade, a honestidade, a autonomia do paciente e o cuidado diante da assimetria de poder existente na relação.


A frequência pode variar conforme a orientação do profissional, a indicação, a disponibilidade e as condições da pessoa. Psicanálise não se define apenas pelo número de sessões semanais nem pela presença de um divã. O importante é que a proposta seja explicada e possa ser discutida, sem pressão para aceitar algo que não foi compreendido.


É obrigatório deitar no divã?


Não. A primeira sessão costuma acontecer face a face, e muitos processos permanecem assim. Em outras propostas, o uso do divã pode ser sugerido posteriormente. A posição corporal faz parte da técnica e deve ter uma justificativa clínica, não ser apresentada como teste de compromisso ou ritual obrigatório.


O divã reduz o contato visual direto e pode favorecer uma fala menos organizada pela reação visível do analista. Para algumas pessoas, isso amplia a liberdade; para outras, aumenta a ansiedade ou não é adequado naquele momento. A decisão precisa considerar o processo singular, a modalidade de atendimento e o diálogo entre paciente e profissional.


No atendimento on-line, a disposição é diferente, mas continuam relevantes privacidade, estabilidade da conexão, proteção do espaço e clareza sobre como agir em caso de interrupção ou emergência. A tecnologia modifica o enquadre; não elimina a necessidade de construí-lo.


Confidencialidade: o que deve ser explicado?


Confidencialidade é uma condição ética e técnica da escuta. A International Psychoanalytical Association observa que, sem a expectativa de proteção da fala, a associação livre do paciente e a escuta livre do analista ficam comprometidas.


Na primeira sessão, o profissional deve explicar como protege as informações e quais limites podem existir conforme a legislação aplicável, o código profissional ao qual está vinculado e situações de risco. Esses limites variam entre jurisdições e profissões; por isso, não devem ser presumidos nem comunicados de maneira vaga.


Discussão de material clínico em supervisão também exige proteção rigorosa da identidade e da intimidade do paciente. Usar uma história em aula, publicação, rede social ou publicidade demanda cuidados éticos específicos. O simples fato de alguém estar em formação não transforma a vida do paciente em material disponível.


O que normalmente não deveria acontecer no primeiro encontro?


Uma primeira sessão responsável não deveria envolver:


  • promessa de cura ou prazo garantido para eliminar sintomas;

  • diagnóstico definitivo formulado sem avaliação suficiente;

  • pressão para revelar traumas ou detalhes íntimos imediatamente;

  • interpretação de cada gesto como prova de um conflito inconsciente;

  • sedução, intimidação, humilhação ou uso da autoridade para impor decisões;

  • ambiguidade deliberada sobre valores e regras do atendimento;

  • convite para relações comerciais, sexuais ou sociais incompatíveis com o vínculo clínico;

  • recomendação para interromper medicação sem participação do profissional prescritor.


O analista também não lê pensamentos. Ele trabalha com o que se apresenta na fala, no silêncio, nos afetos e na relação, formulando hipóteses que precisam ser testadas pelo processo. Uma interpretação que o paciente não reconhece não se torna verdadeira apenas porque veio do profissional.


Conselhos podem aparecer em situações concretas de segurança ou encaminhamento, mas a psicanálise não se organiza como consultoria de vida. O objetivo não é substituir as decisões do paciente pelas preferências do analista.


A primeira sessão é uma avaliação dos dois lados


O analista avalia se pode oferecer o atendimento necessário, se possui competência para aquele caso e se há necessidade de encaminhamento ou trabalho interdisciplinar. O paciente, por sua vez, pode observar se encontra respeito, clareza e condições mínimas para falar.


Algumas perguntas podem ajudar depois do encontro:


  • consegui falar sem ser ridicularizado ou moralizado;

  • minhas perguntas sobre o atendimento foram respondidas com clareza;

  • o profissional respeitou os limites do que eu podia contar;

  • saí com a sensação de uma proposta compreensível, mesmo sem solução imediata;

  • houve pressão, promessa extraordinária ou invasão de limites;

  • existe possibilidade de dizer que algo me incomodou.


Não é necessário sentir confiança completa em uma hora. A desconfiança pode fazer parte da história e ser trabalhada. Ao mesmo tempo, desconforto não deve ser romantizado. Uma diferença importante existe entre a inquietação de falar sobre algo difícil e a percepção de que o profissional foi desrespeitoso, coercitivo ou antiético.


O tratamento é voluntário. O código da IPA reconhece que o paciente pode interromper ou procurar outra orientação. Se o analista considerar que não deve prosseguir, precisa levar em conta as necessidades de cuidado e, quando possível, indicar alternativas responsáveis.


Por que a aliança terapêutica começa a importar tão cedo?


Aliança terapêutica é a capacidade de paciente e profissional construírem colaboração em torno de objetivos, tarefas e vínculo de trabalho. Ela não exige concordância permanente nem simpatia imediata. Inclui a possibilidade de falar sobre dúvidas, desencontros e rupturas.


Uma meta-análise com mais de 14 mil tratamentos encontrou uma associação consistente entre a qualidade da aliança e os resultados da psicoterapia, embora essa relação não prove que a aliança, isoladamente, cause a mudança. Uma revisão sobre os contatos terapêuticos iniciais encontrou formatos muito diferentes e limitações metodológicas, mas sugere que os primeiros encontros constituem uma fase relevante do cuidado.


Essas pesquisas não autorizam transformar a primeira sessão em teste de satisfação instantânea. Uma aliança pode crescer, sofrer rupturas e ser reparada. Na psicanálise, inclusive, expectativas construídas em relações anteriores começam a aparecer no novo vínculo. O modo como analista e paciente podem pensar sobre isso importa mais do que uma experiência artificialmente perfeita.


Uma cena composta: “não sei se meu problema é suficiente”


Clara marca a primeira sessão depois de meses adiando. Quando se senta, diz que talvez esteja ocupando o lugar de alguém “que precisa de verdade”. Fala de cansaço, irritação e dificuldade de dormir, mas minimiza cada ponto. Ao relatar uma separação recente, sorri e muda rapidamente para o trabalho.


O analista poderia apressar-se a procurar um diagnóstico ou garantir que tudo ficará bem. Em vez disso, pergunta o que fez Clara imaginar que precisaria provar merecimento para estar ali. Ela lembra que, em casa, seus problemas eram comparados aos de pessoas que “tinham motivos maiores”. Pela primeira vez, a pergunta não é apenas o que aconteceu na separação, mas por que o sofrimento precisa passar por um tribunal antes de ser reconhecido.


Esse exemplo é fictício e composto. Ele mostra que a primeira sessão não precisa resolver a história para produzir um deslocamento. Uma frase usada para pedir desculpas por estar presente pode abrir uma investigação sobre o lugar que a pessoa costuma ocupar.


Como se preparar sem transformar a sessão em prova


Se ajudar, anote o motivo principal da procura, sintomas que exigem atenção, tratamentos anteriores, medicamentos em uso e perguntas práticas. Tenha à mão informações importantes sobre saúde e contatos de emergência quando houver risco conhecido. No atendimento on-line, procure um lugar privado, use fones se necessário e teste a conexão.


Depois disso, permita que a conversa tenha movimento próprio. Você pode levar anotações e não seguir nenhuma delas. Pode chorar, rir de nervoso, esquecer nomes, ficar em silêncio ou dizer que teme ser julgado. Não existe nota para desempenho emocional.


Também é possível sair com novas perguntas. A primeira sessão não precisa produzir alívio imediato para ter valor, e uma experiência intensa não garante que o profissional seja adequado. Observe o conjunto: ética, clareza, capacidade de escuta, manejo de limites e possibilidade de continuidade.


Quando a primeira procura exige outro tipo de cuidado imediato?


Nem toda situação pode aguardar o ritmo de uma investigação analítica. Risco imediato de autoagressão ou violência, confusão intensa, incapacidade grave de autocuidado, intoxicação, abstinência importante ou sintomas físicos agudos podem exigir serviços de emergência, avaliação médica ou psiquiátrica e apoio de pessoas de confiança.


Buscar cuidado urgente não impede uma análise posterior. Em alguns casos, psicanálise, acompanhamento médico, psiquiatria e outros recursos trabalham de forma articulada. O analista responsável reconhece os limites do próprio método e não apresenta a psicanálise como substituta universal de todos os tratamentos.


Se houver perigo imediato, procure o serviço de emergência da sua região. No Brasil, o SAMU atende pelo 192; em crise emocional e necessidade de conversa, o CVV atende pelo 188. Esses recursos não substituem acompanhamento continuado, mas podem fazer parte de uma rede de proteção.


O que a primeira sessão ensina sobre a posição do analista?


Para quem pensa em formação, a aparente simplicidade do encontro revela uma tarefa complexa. É preciso acolher sem prometer, perguntar sem interrogar, manter silêncio sem abandonar, interpretar sem impor, avaliar riscos sem reduzir a pessoa a uma lista de sintomas e estabelecer limites sem transformar o enquadre em exercício de poder.


Nenhuma técnica isolada produz essa posição. A teoria oferece conceitos; a análise pessoal ajuda o futuro profissional a reconhecer seus conflitos e expectativas; a supervisão permite pensar o material clínico, os limites do caso e os efeitos das intervenções.


A prática psicanalítica exige muito mais do que conversar: ela depende de teoria, análise pessoal, ética e supervisão.



Perguntas frequentes


O que devo falar na primeira sessão de psicanálise?

Você pode começar pelo motivo que tornou a procura necessária agora, mesmo que ainda não consiga explicá-lo bem. Não é preciso contar toda a vida, falar primeiro da infância ou organizar os acontecimentos cronologicamente. Dizer “não sei por onde começar” também oferece um ponto de partida.

O psicanalista faz perguntas na primeira sessão?

Pode fazer. As perguntas variam conforme o profissional e a situação. Podem abordar o motivo da busca, a história do sofrimento, tratamentos anteriores, saúde, medicamentos, riscos, expectativas e condições práticas. O encontro não precisa funcionar como entrevista rígida.

Preciso deitar no divã logo no primeiro encontro?

Não. A primeira sessão geralmente acontece face a face, e muitos trabalhos permanecem assim. O uso do divã depende da orientação do analista, da proposta clínica, da modalidade e do processo singular. Deve ser explicado e discutido, não imposto como ritual.

Quanto tempo dura uma sessão de psicanálise?

A duração varia entre profissionais e orientações. Muitos atendimentos trabalham com um período previamente combinado, enquanto outras práticas utilizam o tempo de maneira diferente. O analista deve explicar sua forma de trabalho, frequência, horários e condições antes do início.

O analista dará um diagnóstico na primeira sessão?

Não necessariamente. Uma formulação responsável exige avaliação suficiente e, em alguns casos, participação de profissionais habilitados para diagnóstico médico ou psicológico. O analista pode levantar hipóteses, avaliar indicação e sugerir encaminhamentos sem apresentar uma conclusão precipitada.

Tudo o que eu disser será confidencial?

Confidencialidade é um fundamento ético da prática, mas o profissional deve explicar seus limites conforme a legislação aplicável, sua profissão de origem, o contexto do atendimento e situações de risco. Pergunte como informações, registros e supervisões são protegidos.

Como saber se devo continuar depois da primeira sessão?

Observe se houve respeito, clareza sobre o método e o enquadre, possibilidade de perguntar e liberdade para falar sem humilhação ou coerção. Confiança pode levar tempo, mas promessas de cura, invasão de limites, sedução, intimidação e falta de transparência são sinais de alerta.


Conclusão


A primeira sessão de psicanálise não exige uma história perfeita. Ela inaugura um espaço no qual a queixa pode ser escutada sem ser imediatamente comprimida em conselho, diagnóstico ou explicação universal. O que trouxe a pessoa, por que a busca acontece agora e como ela dirige seu pedido começam a formar um campo de investigação.


Nesse encontro, também se estabelecem condições concretas: horários, frequência, honorários, privacidade, confidencialidade, modalidade e responsabilidades. Longe de serem detalhes administrativos, esses elementos sustentam a continuidade e a segurança do trabalho.


Um bom começo não é aquele em que tudo foi contado ou resolvido. É aquele em que existe clareza suficiente para decidir se o processo pode continuar, liberdade para não saber e uma escuta capaz de transformar a pergunta “o que eu devo falar?” em outra possibilidade: “o que pode aparecer quando eu não preciso entregar uma versão pronta de mim?”.


Este artigo tem finalidade educativa e não substitui avaliação, psicanálise, psicoterapia, diagnóstico ou atendimento médico e psiquiátrico realizado por profissionais qualificados. Em situações de risco imediato, procure os serviços de emergência da sua região.


 
 
 

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