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Augusto Cury e a Teoria da Inteligência Multifocal: convergências e divergências com a psicanálise

31 de ago.
15 min de leitura

Por que uma pessoa pode compreender perfeitamente a origem de determinado sofrimento e, ainda assim, continuar repetindo o mesmo comportamento? Por que saber que um medo é irracional nem sempre nos permite deixar de senti-lo? E por que experiências antigas continuam exercendo influência sobre nossas escolhas, mesmo quando acreditamos já tê-las superado?


Essas perguntas ocupam um lugar importante tanto na obra de Augusto Cury quanto na história da psicanálise. Em ambos os campos encontramos interesse pela memória, pelos processos inconscientes, pela formação dos pensamentos e pelas dificuldades que o ser humano enfrenta para governar a própria vida emocional.


As aproximações, porém, não devem esconder diferenças profundas. A Teoria da Inteligência Multifocal apresenta o Eu como uma instância que pode aprender a gerir pensamentos e emoções, ampliar sua consciência crítica e tornar-se autor da própria história. A psicanálise nasce da descoberta de que o Eu não é inteiramente senhor de sua própria casa.


Desejos, fantasias, conflitos, identificações e mecanismos de defesa participam das escolhas humanas sem que a consciência consiga controlá-los completamente. A comparação entre as duas propostas exige, portanto, mais do que reunir palavras aparentemente semelhantes.


Inconsciente, memória, Eu, pensamento e emoção não possuem necessariamente o mesmo significado nos dois sistemas. O verdadeiro ponto de encontro não está na identidade entre os conceitos, mas no reconhecimento de um problema comum: existe uma distância entre aquilo que sabemos sobre nós mesmos e aquilo que efetivamente conseguimos transformar.


O que é a Teoria da Inteligência Multifocal?


A Teoria da Inteligência Multifocal, frequentemente identificada pela sigla TIM, é uma proposta elaborada por Augusto Cury para explicar o funcionamento da mente, a construção dos pensamentos, a formação do Eu e a gestão das emoções.


O termo multifocal expressa a ideia de que o pensamento não seria produzido por uma única causa. Diferentes processos conscientes e inconscientes participariam simultaneamente da leitura da memória, da interpretação das experiências e da produção de respostas emocionais.


No material introdutório oficial da Teoria da Inteligência Multifocal, alguns desses processos são apresentados por meio de conceitos próprios:


  • O Registro Automático da Memória, ou fenômeno RAM, seria responsável pelo registro involuntário das experiências, pensamentos e emoções.

  • O gatilho da memória iniciaria o processo de interpretação diante de um estímulo físico, social ou psíquico.

  • As janelas da memória corresponderiam aos territórios acessados em determinado momento para interpretar uma experiência.

  • A âncora da memória restringiria o campo de leitura conforme a intensidade emocional envolvida.

  • O autofluxo participaria da leitura das janelas e da construção de pensamentos, imagens mentais, fantasias e emoções.

  • O Eu, apresentado como piloto mental consciente, representaria a capacidade de escolher, estabelecer metas, rever caminhos e intervir sobre a própria atividade mental.


A TIM não se limita à afirmação de que temos pensamentos automáticos. Ela procura descrever uma arquitetura mental composta por diferentes fenômenos que operariam antes, durante e depois da intervenção consciente do Eu.


Sua finalidade prática é fortalecer a capacidade de autogestão. O indivíduo deve aprender a identificar pensamentos perturbadores, questionar crenças, interromper reações impulsivas e construir respostas emocionalmente mais saudáveis.


Essa perspectiva ajuda a compreender a popularidade da obra de Cury. Seus conceitos são apresentados em linguagem acessível e frequentemente traduzidos em instrumentos utilizados na educação, nos relacionamentos e na vida cotidiana. Entretanto, a presença de palavras também encontradas na psicologia e na psicanálise não significa que a TIM apenas atualize conceitos freudianos.


O que a psicanálise entende por inconsciente?


Não existe uma psicanálise inteiramente homogênea. Freud, Melanie Klein, Winnicott, Bion e Lacan construíram modelos distintos, embora ligados por uma tradição comum. Nesta comparação, a teoria freudiana funciona como referência principal, com a introdução de outros autores quando eles ajudam a esclarecer a complexidade do campo.


Para Freud, o inconsciente não é somente uma região desconhecida da memória. Ele é um sistema dinâmico no qual desejos, representações e conflitos permanecem afastados da consciência, mas continuam produzindo efeitos.


Esses efeitos podem aparecer nos sonhos, nos sintomas, nos atos falhos, nos esquecimentos, nas escolhas amorosas e nos comportamentos repetitivos. O inconsciente não está silencioso: manifesta-se de maneira indireta.


A descoberta psicanalítica também não significa apenas que desconhecemos certas informações sobre nós mesmos. Determinadas forças psíquicas trabalham ativamente para que algo permaneça desconhecido. É nesse ponto que aparece o conceito de resistência.


Uma pessoa pode desejar compreender por que sofre e, ao mesmo tempo, defender-se dessa compreensão. Pode procurar ajuda para mudar uma relação e, simultaneamente, recriar as condições que mantêm essa relação funcionando da mesma maneira. O conflito não ocorre simplesmente entre conhecimento e ignorância, mas entre desejos, medos, proibições, defesas e formas de satisfação que coexistem no próprio sujeito.


Primeira convergência: a consciência não controla toda a atividade mental


A primeira aproximação relevante entre Augusto Cury e a psicanálise está no reconhecimento de que a consciência não produz nem controla todos os pensamentos.


Na TIM, parte significativa da atividade mental é atribuída aos chamados copilotos inconscientes. O registro das experiências seria involuntário, e diferentes fenômenos atuariam na abertura das janelas da memória e na formação das primeiras interpretações.


Na psicanálise, pensamentos e comportamentos também podem emergir de processos que escapam ao controle consciente. Um sujeito pode repetir determinada escolha sem saber o que procura por meio dela. Pode interpretar uma situação presente a partir de antigas experiências relacionais sem perceber essa ligação.


Existe, portanto, uma convergência importante: o Eu consciente não inaugura sozinho a experiência psíquica. A diferença está na arquitetura utilizada para explicar essa falta de controle. Cury descreve gatilho, âncora, autofluxo e janelas da memória; a psicanálise trabalha com recalque, retorno do recalcado, defesa, conflito, fantasia, desejo e transferência.


Memória e passado: por que o que aconteceu continua acontecendo?


Outro ponto de aproximação está na importância concedida à memória. Para a Teoria da Inteligência Multifocal, as experiências são registradas independentemente da vontade do Eu. Registros emocionalmente intensos podem organizar janelas que influenciam a interpretação de situações futuras.


Essa formulação procura explicar por que um acontecimento relativamente pequeno pode desencadear uma resposta emocional intensa. A situação presente não seria interpretada de maneira isolada, mas a partir dos registros ativados naquele momento.


A psicanálise também sustenta que o presente é atravessado pelo passado. Contudo, sua concepção de memória não corresponde a um arquivo que preserva acontecimentos de maneira neutra. Recordar é sempre reconstruir.


Lembranças podem ser encobertas, deformadas, reorganizadas e reinterpretadas. Uma fantasia pode ter tanta força psíquica quanto um acontecimento objetivo. Além disso, experiências posteriores podem modificar o sentido de acontecimentos anteriores.


Na TIM, o problema é frequentemente apresentado como a ativação de registros ou janelas emocionalmente prejudiciais. Na psicanálise, a questão não é apenas qual lembrança foi registrada, mas como ela foi significada, recalcada, fantasiada e incorporada à história do sujeito.


A divergência fundamental: o Eu gestor e o sujeito dividido


A diferença mais profunda entre a Teoria da Inteligência Multifocal e a psicanálise encontra-se no estatuto do Eu.


Na proposta de Cury, o Eu pode desenvolver consciência crítica, observar os próprios pensamentos, questionar crenças, proteger a emoção e assumir maior responsabilidade sobre suas respostas. Embora existam processos inconscientes, o projeto de transformação depende do fortalecimento do Eu como gestor da mente.


Essa concepção está associada a expressões recorrentes na obra de Cury: ser líder de si mesmo, dirigir o próprio roteiro e tornar-se autor da própria história. A saúde emocional estaria relacionada à capacidade de não permanecer refém dos pensamentos automáticos e das experiências registradas na memória.


A psicanálise oferece uma imagem menos soberana do Eu. Para Freud, o próprio Eu possui dimensões inconscientes. Muitas das operações pelas quais ele procura preservar estabilidade — negação, projeção, racionalização, repressão e outras defesas — não são realizadas de maneira deliberada.


O Eu não observa o conflito de um ponto inteiramente externo. Ele faz parte do conflito. Uma pessoa pode considerar que está tomando uma decisão puramente racional quando sua racionalidade está sendo utilizada para justificar uma escolha motivada por medo, culpa ou desejo inconsciente.


Lacan radicaliza essa descentralização ao afirmar que o sujeito não coincide plenamente com o Eu consciente. O sujeito aparece dividido pela linguagem, pelo desejo e pelo inconsciente. A promessa de controle integral torna-se, nessa perspectiva, uma ilusão.


Isso não significa que a psicanálise defenda passividade ou irresponsabilidade. A responsabilidade analítica nasce não do controle total, mas do reconhecimento da participação do sujeito naquilo que repete. A TIM privilegia a imagem do Eu gestor; a psicanálise trabalha com a ideia do sujeito dividido.


O que cada teoria entende por sintoma?


Na perspectiva da gestão emocional, um pensamento angustiante ou uma reação impulsiva pode ser entendido como resultado da abertura de determinadas janelas, da restrição do campo de leitura e da dificuldade do Eu para intervir de maneira saudável.


A tarefa consiste em ampliar a consciência, questionar pensamentos e criar respostas alternativas. O sintoma aparece predominantemente como um padrão que precisa ser interrompido, modificado ou reeditado.


Na psicanálise, o sintoma não é somente um defeito do funcionamento mental. Ele é uma formação de compromisso: expressa simultaneamente diferentes forças em conflito.


O sintoma produz sofrimento, mas pode também proteger o sujeito de uma angústia considerada ainda mais insuportável. Pode limitar sua vida e, ao mesmo tempo, oferecer uma forma indireta de satisfação ou defesa. Por esse motivo, eliminar um sintoma sem compreender sua função pode não resolver o conflito que o sustenta.


A pergunta psicanalítica não se limita a como interromper determinado padrão. Ela investiga por que o sintoma surgiu, o que evita, qual conflito representa, que satisfação inconsciente preserva e como se relaciona com a história e os vínculos da pessoa.


Gestão emocional e elaboração psíquica


A Teoria da Inteligência Multifocal possui orientação mais educativa e diretiva. Seus instrumentos procuram ajudar o indivíduo a pensar antes de reagir, questionar conteúdos perturbadores e proteger a própria experiência emocional.


O valor prático dessa proposta é facilmente compreensível. Desenvolver capacidade reflexiva, reconhecer uma reação automática e criar um intervalo entre impulso e ação pode melhorar relações e reduzir comportamentos destrutivos.


A psicanálise, entretanto, desconfia da ideia de que a finalidade do trabalho psíquico seja dominar as emoções. Uma emoção não é apenas uma perturbação que deve ser controlada. Ela pode comunicar algo que ainda não encontrou palavras.


A ansiedade pode acompanhar um desejo que o sujeito não admite. A raiva pode encobrir uma dependência. A indiferença pode funcionar como defesa contra a possibilidade de perda. Controlar rapidamente uma emoção pode ser necessário, mas, se o controle se transforma na única resposta, corre-se o risco de silenciar aquilo que precisava ser escutado.


Em Bion, a capacidade de pensar depende da possibilidade de tolerar e transformar experiências emocionais. Pensar não significa expulsar a emoção, mas oferecer-lhe uma forma psíquica que possa ser suportada. Em Winnicott, o desenvolvimento emocional depende de condições relacionais que permitam integração, espontaneidade e criatividade.


A crítica de Cury à psicanálise


Em Inteligência Multifocal, Augusto Cury dirige uma crítica explícita à psicanálise. Segundo sua argumentação, compreender as causas inconscientes de um conflito seria importante, mas insuficiente para resolvê-lo.


Uma pessoa poderia conhecer sua história, compreender a formação de sua personalidade e identificar as origens de seus sintomas sem conseguir modificar o funcionamento emocional que mantém seu sofrimento. Faltaria um Eu ativo, capaz de intervir sobre os padrões mentais.


Essa crítica toca em um problema real. É comum alguém dizer: sei por que faço isso, mas continuo fazendo. A pessoa reconhece que escolhe parceiros emocionalmente indisponíveis, entende que essa escolha se relaciona com sua história e, mesmo assim, repete o padrão.


A consciência intelectual, isoladamente, não transforma automaticamente a vida emocional. Entretanto, atribuir à psicanálise a crença de que descobrir uma causa inconsciente seria suficiente para produzir a cura simplifica sua teoria clínica.


Freud também afirmava que compreender não basta


Em 1914, Freud publicou um de seus textos técnicos mais importantes: Recordar, repetir e elaborar. Nesse trabalho, demonstra que o paciente nem sempre recorda diretamente aquilo que foi esquecido ou recalcado. Em vez de recordar, ele repete.


A pessoa reproduz no presente modos de sentir, relacionar-se e defender-se que pertencem à sua história. Ela os repete sem saber que está repetindo. Essa reprodução pode aparecer especialmente na relação com o analista.


Um paciente que teme depender de alguém pode tratar a análise como uma relação da qual precisa escapar. Alguém que espera ser humilhado pode interpretar toda intervenção como ataque. Uma pessoa que procura incessantemente aprovação pode tentar transformar o analista em juiz de suas decisões.


O passado deixa de ser somente uma história narrada e torna-se uma força presente. Freud relaciona diretamente essa repetição à resistência e à transferência. O conflito não é superado porque o analista revelou uma informação correta. Ele precisa aparecer na relação, ser reconhecido em suas diferentes manifestações e passar por um processo de elaboração.


No texto de Freud sobre recordar, repetir e elaborar, a transformação analítica aparece como um trabalho que exige tempo. A resistência precisa ser reconhecida e atravessada repetidamente; ela não desaparece diante de uma explicação intelectualmente convincente.


Cury critica a ideia de que conhecer as causas inconscientes seria suficiente para superar um conflito. Porém, Freud já demonstrava que recordar ou compreender intelectualmente não basta — é necessário repetir, elaborar e trabalhar o conflito na transferência. Portanto, parte da divergência anunciada por Cury aproxima-se de uma formulação que a própria psicanálise já havia desenvolvido.

Os dois campos concordam que informação não equivale a transformação. A divergência está no mecanismo proposto para atravessar essa distância. Cury enfatiza o desenvolvimento de um Eu capaz de intervir ativamente na produção de pensamentos e no gerenciamento das emoções. Freud enfatiza o trabalho sobre a resistência e a repetição que se atualizam na transferência.


Transferência: o que acontece entre paciente e analista?


Na psicanálise, o paciente não apresenta apenas um relato sobre sua vida. Ele também transfere para a relação analítica expectativas, medos, desejos e formas de vínculo construídas em sua história.


Isso não significa que confunda literalmente o analista com alguém de seu passado. Significa que interpreta e organiza a relação atual a partir de modelos afetivos anteriores.


A transferência transforma a própria relação terapêutica em campo de investigação. O paciente não apenas fala sobre sua dificuldade de confiar: ele pode desconfiar do analista. Não apenas descreve seu medo de abandono: pode interpretar uma interrupção de sessão como rejeição.


A Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos preserva um manuscrito das conferências de Freud no qual a transferência é descrita como repetição de experiências anteriores na relação com o médico. O documento pode ser consultado na exposição Sigmund Freud: Conflict and Culture.


Na TIM, ao menos em seus materiais introdutórios e de divulgação, a relação transferencial não ocupa o mesmo lugar central. O foco recai sobre os fenômenos envolvidos na construção do pensamento e sobre as ferramentas que o Eu pode utilizar para intervir em sua vida mental.


A mudança proposta pela TIM pode ser ensinada em programas educativos, cursos e exercícios de autogestão. A transformação psicanalítica depende de uma relação clínica na qual as repetições possam emergir e ser trabalhadas.


A psicanálise considera o Eu completamente impotente?


Não. Essa seria outra simplificação. Embora Freud retire do Eu a posição de soberania, a psicanálise busca ampliar a capacidade de reflexão, simbolização e escolha. O tratamento pretende tornar reconhecíveis determinações que antes operavam silenciosamente.


Algumas tradições psicanalíticas, especialmente aquelas relacionadas à psicologia do ego, enfatizaram explicitamente o fortalecimento das funções do Eu. Winnicott estudou as condições necessárias para a integração emocional e para uma vida mais espontânea. Bion investigou o desenvolvimento da capacidade de pensar experiências emocionais.


Existe, portanto, uma aproximação possível entre a formação de um Eu mais capaz, presente em Cury, e certos objetivos encontrados em diferentes tradições psicanalíticas.


A divergência permanece porque, para a psicanálise, um Eu mais integrado não é um Eu onipotente. Saúde psíquica não significa controlar todos os pensamentos ou eliminar a ambivalência. Significa tolerar limites, contradições, incertezas e conflitos sem precisar expulsá-los imediatamente da experiência.


Ser autor da própria história: promessa ou direção ética?


A expressão ser autor da própria história possui grande força. Ela combate a ideia de que uma pessoa deva permanecer eternamente prisioneira do passado. Também estimula responsabilidade, reflexão e iniciativa.


Contudo, interpretada literalmente, essa expressão pode produzir um problema: ninguém é autor exclusivo da própria história. Somos constituídos por relações, perdas, condições sociais, linguagem, corpo, cultura e experiências que não escolhemos.


A psicanálise introduz uma distinção importante entre autoria e soberania. Podemos assumir uma posição mais responsável diante de nossa história sem imaginar que a escrevemos sozinhos. Podemos transformar nossa relação com o passado sem acreditar que ele pode ser apagado.


Nesse sentido, ser autor pode ser uma metáfora fecunda quando significa participar ativamente da própria trajetória. Torna-se problemática quando sugere que todo sofrimento persiste por falta de vontade, treinamento ou gerenciamento adequado. Uma teoria da transformação emocional precisa preservar a responsabilidade sem converter o sofrimento em culpa individual.


Questões de fundamentação e estatuto epistemológico


A comparação também exige cautela quanto ao estatuto científico das duas propostas. A TIM é uma teoria autoral que reúne psicologia, filosofia, educação, linguagem cognitiva e instrumentos de autogestão.


A difusão de uma teoria, seu êxito editorial e a utilidade percebida por seus leitores não constituem, isoladamente, validação empírica de todos os mecanismos propostos.


Uma análise acadêmica publicada em 2024 examinou criticamente a TIM e sua aplicação na Escola da Inteligência. As autoras discutem os riscos de apaziguamento, conformação e disciplinamento quando programas de educação emocional são transformados em pacotes educacionais. Trata-se de uma perspectiva crítica específica, não de um veredito definitivo sobre toda a obra de Cury. O estudo está disponível na revista Criar Educação, da Universidade do Extremo Sul Catarinense.


A psicanálise também enfrenta debates epistemológicos. Algumas formulações metapsicológicas são difíceis de submeter a testes experimentais, e a eficácia das diferentes modalidades psicanalíticas continua sendo objeto de pesquisa e controvérsia.


Uma comparação intelectualmente honesta não deve transformar a popularidade da TIM em comprovação científica, nem apresentar toda a psicanálise como um bloco de conhecimento definitivamente confirmado. Os dois campos precisam ser examinados de acordo com seus conceitos, métodos, evidências e limites.


As duas abordagens podem dialogar?


Sim, desde que diálogo não signifique fusão apressada. Instrumentos de educação emocional podem ajudar uma pessoa a nomear o que sente, criar uma pausa antes de agir e perceber determinados automatismos.


A psicanálise pode aprofundar a investigação quando o problema não se resolve apenas com a adoção de uma resposta mais racional. Ela pergunta por que certos pensamentos retornam, por que algumas relações são repetidas, por que determinadas mudanças provocam resistência e o que o sujeito preserva por meio de seu sintoma.


A TIM tende a oferecer ferramentas para o manejo consciente. A psicanálise investiga aquilo que resiste ao manejo. Uma pode favorecer recursos de regulação e reflexão; a outra pode explorar desejos, fantasias, conflitos e repetições que não se modificam por decisão voluntária.


A integração responsável exige reconhecer que as abordagens não são intercambiáveis. Um programa educativo de gestão emocional não equivale a uma análise. Da mesma forma, um processo analítico não precisa rejeitar toda estratégia consciente utilizada por alguém para enfrentar uma situação difícil.


Convergências e divergências em síntese


Principais convergências


  • A consciência não controla toda a atividade mental.

  • Experiências anteriores influenciam pensamentos e reações presentes.

  • A memória participa ativamente da interpretação da realidade.

  • Compreender intelectualmente um problema não garante sua transformação.

  • A auto-observação pode ampliar a liberdade diante de comportamentos automáticos.

  • O sofrimento emocional não deve ser reduzido a fraqueza moral.


Principais divergências


  • A TIM descreve o Eu como potencial gestor da mente; a psicanálise compreende o Eu como dividido e parcialmente inconsciente.

  • Cury trabalha com gatilhos, janelas, âncoras, autofluxo e Registro Automático da Memória; a psicanálise trabalha com desejo, recalque, defesa, fantasia, conflito e transferência.

  • A TIM prioriza ferramentas de gestão emocional; a psicanálise privilegia associação livre, escuta, interpretação, transferência e elaboração.

  • A TIM tende a abordar padrões emocionais como processos que devem ser modificados; a psicanálise investiga o sintoma como formação dotada de função e sentido inconsciente.

  • Cury enfatiza autoria, liderança e intervenção do Eu; a psicanálise enfatiza responsabilidade sem soberania absoluta.

  • Na TIM, a transformação pode ser ensinada por práticas de autogestão; na psicanálise, ela ocorre especialmente em um processo relacional e transferencial.


Conclusão: controlar a mente ou transformar nossa relação com ela?


Augusto Cury e a psicanálise partem de uma inquietação comum: o ser humano não compreende nem governa inteiramente aquilo que acontece em sua própria mente.


A Teoria da Inteligência Multifocal responde a esse problema propondo o fortalecimento do Eu, a compreensão dos fenômenos envolvidos na construção dos pensamentos e o desenvolvimento de ferramentas de gestão emocional.


A psicanálise responde de outra maneira. Sustenta que o Eu não pode ocupar uma posição completamente externa ao conflito porque também é formado por ele. A transformação não acontece apenas pela aquisição de conhecimento ou pela decisão consciente de pensar de forma diferente.


A crítica de Cury ao insight isolado é relevante: saber não é o mesmo que transformar. Mas essa descoberta não é exterior à psicanálise. Freud já havia mostrado que o paciente não simplesmente recorda o passado — ele o repete no presente. É justamente essa repetição, quando reconhecida e trabalhada na transferência, que abre a possibilidade de elaboração.


A convergência mais profunda talvez esteja aqui: nenhuma das duas propostas acredita que a consciência teórica seja suficiente.


A divergência está no caminho escolhido. Cury aposta na formação de um Eu mais ativo e gestor. A psicanálise aposta na escuta de um sujeito dividido, capaz de conquistar maior liberdade não por controlar tudo o que sente, mas por transformar sua relação com o desejo, o conflito e a própria história.


Entre a pretensão de domínio absoluto e a resignação passiva existe um campo decisivo: o trabalho psíquico. É nesse campo que compreender deixa de ser apenas acumular explicações e passa a significar uma experiência real de transformação.



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Perguntas frequentes


A Teoria da Inteligência Multifocal é uma forma de psicanálise?

Não. Embora utilize temas como inconsciente, memória e Eu, a TIM possui conceitos próprios e uma orientação mais educativa e voltada à gestão emocional. A psicanálise se organiza em torno de conceitos como recalque, desejo, defesa, transferência e elaboração.

Qual é a principal convergência entre Augusto Cury e Freud?

Ambos reconhecem que a consciência não controla integralmente a vida mental e que compreender racionalmente a origem de um conflito não garante, por si só, sua transformação.

Qual é a principal divergência entre a TIM e a psicanálise?

A TIM atribui ao Eu uma função de gestão e liderança mental. A psicanálise compreende o Eu como dividido e parcialmente inconsciente, limitado por desejos, defesas e conflitos que não controla completamente.

Freud acreditava que descobrir a causa de um problema era suficiente para curá-lo?

Não. Em Recordar, repetir e elaborar, Freud mostra que o paciente frequentemente repete seus conflitos em vez de apenas recordá-los. A mudança exige elaboração das resistências e trabalho com a transferência.

A TIM e a psicanálise podem ser utilizadas de maneira complementar?

Podem dialogar, desde que não sejam tratadas como equivalentes. Recursos de educação emocional podem favorecer reflexão e regulação, enquanto a psicanálise investiga os sentidos inconscientes, as repetições e as funções do sintoma.


Referências




FREUD, Sigmund. Recordar, repetir e elaborar (1914).


FREUD, Sigmund. O Eu e o Id (1923).


GARROS, Mariana da Rosa Silveira; RIPA, Roselaine. Teoria Multifocal e a Escola da Inteligência: uma análise à luz da Teoria Crítica da Sociedade. Revista Criar Educação, v. 13, n. 2, 2024.


LACAN, Jacques. O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise.


WINNICOTT, Donald W. O brincar e a realidade.


BION, Wilfred R. Aprender com a experiência.

 
 
 

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