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Por que sentir raiva provoca culpa? Quando a agressividade é confundida com violência

26 de ago.
13 min de leitura
Pessoa transforma uma energia vermelha em limite e sinal, representando a raiva reconhecida sem violência, diante de um objeto frágil intacto.

Uma pessoa é desrespeitada, percebe que um limite foi ultrapassado e sente raiva. Pouco depois, a emoção cede lugar a outra experiência: “fui injusto?”, “será que sou uma pessoa ruim?”, “e se eu perder o amor de quem confrontei?”. Às vezes, ela nem chegou a dizer nada. Apenas sentir já parece condenável.


A raiva pode provocar culpa quando foi associada a perigo, rejeição, perda de controle ou falha moral. Quem aprendeu que amar significa nunca contrariar talvez viva qualquer irritação como ameaça ao vínculo. Quem conviveu com explosões pode temer tornar-se igual ao agressor. E quem precisou ser sempre “fácil” pode interpretar a própria raiva como prova de ingratidão.


Raiva, agressividade e violência não são sinônimos. A raiva é um afeto. A agressividade pode designar tendências de oposição, ataque, defesa e afirmação presentes na vida psíquica. A violência é um ato ou padrão que causa dano, ameaça, coerção ou violação. Sentir não equivale a agir, mas reconhecer a emoção não elimina a responsabilidade sobre o que se faz com ela.


A psicanálise não busca liberar toda raiva nem ensinar alguém a suportar tudo em silêncio. Procura compreender o que aquele afeto sinaliza, como foi tratado na história do sujeito e que caminhos encontra — palavra, limite, sintoma, ressentimento, autocondenação ou ato.


O que é a raiva?


Raiva é uma resposta afetiva que pode surgir diante de frustração, ameaça, injustiça, invasão, impotência ou obstáculo. Sua intensidade varia desde irritação breve até cólera. Ela envolve experiência subjetiva, ativação corporal, pensamentos e impulsos de ação, mas esses componentes não formam um roteiro inevitável.


Uma pessoa pode sentir raiva e pedir distância. Outra pode argumentar com firmeza, chorar, ficar em silêncio ou precisar de tempo antes de responder. A presença do afeto não determina automaticamente o comportamento.


Raiva tampouco revela sempre que o outro está errado. Podemos nos irritar quando somos confrontados com um limite legítimo, quando uma expectativa não é atendida ou quando algo toca uma ferida narcísica. O sentimento é verdadeiro como experiência; sua interpretação sobre os fatos ainda precisa ser examinada.


Por isso, “validar a raiva” não significa confirmar toda acusação produzida durante a raiva. Significa reconhecer que algo aconteceu no sujeito e merece ser compreendido, sem transformar a emoção em licença para ferir.


Raiva, agressividade e violência: qual é a diferença?


Na linguagem cotidiana, as três palavras são frequentemente misturadas. Diferenciá-las ajuda a retirar a raiva do campo da condenação moral sem minimizar comportamentos perigosos.


Raiva é o afeto percebido: tensão, calor, irritação, indignação, vontade de interromper ou confrontar. Agressividade é um conceito mais amplo. Pode aparecer como força para competir, separar-se, proteger um limite, recusar uma imposição ou atacar. Violência envolve a passagem para ações que ferem, intimidam, controlam, ameaçam ou destroem.


Essa distinção não afirma que raiva e agressão não possuam relação. Uma revisão sistemática de estudos neurais, cognitivos e clínicos examinou processos compartilhados por raiva e agressão, incluindo atenção a estímulos de ameaça, impulsividade e regulação. Associação, entretanto, não é identidade nem destino.


Uma pessoa pode falar sobre fantasias agressivas sem realizá-las. Pode reconhecer vontade de gritar e escolher sair da cena. Também pode agir violentamente de maneira calculada, sem a explosão emocional que costuma ser imaginada. Avaliar risco exige olhar para comportamento, intenção, meios disponíveis, contexto e histórico — não apenas para a existência de raiva.


Por que alguém se sente culpado apenas por estar com raiva?


A culpa pode aparecer antes de qualquer ato porque o conflito acontece no mundo interno. O sujeito imagina que seu afeto já feriu o outro, revelou falta de amor ou rompeu uma imagem ideal de si.


Em algumas histórias, a criança percebeu que expressar contrariedade produzia afastamento, silêncio punitivo ou ameaça. Preservar o vínculo exigia não demonstrar raiva. Mais tarde, discordar de um parceiro, chefe ou familiar pode reativar o medo de perder amor e proteção.


O supereu — instância relacionada a proibições, ideais e autocensura — pode exigir uma bondade impossível. A pessoa não deveria apenas controlar seus atos; deveria nunca desejar confronto, nunca se irritar, nunca pensar algo hostil. Como nenhum psiquismo corresponde a esse ideal, a culpa se torna frequente.


Há ainda quem tema repetir a violência que testemunhou. “Se sinto raiva, sou igual ao meu pai” transforma uma emoção humana em identidade. A diferença não está em nunca sentir, mas na capacidade de reconhecer o impulso, assumir responsabilidade e escolher outros destinos para ele.


A criança aprende quais emoções podem existir


Famílias e comunidades ensinam explicitamente e por exemplo como as emoções serão recebidas. Algumas perguntam o que aconteceu e ajudam a nomear. Outras ridicularizam, punem, ignoram ou respondem com intensidade ainda maior.


Uma revisão sistemática sobre autorregulação parental e socialização emocional encontrou, no conjunto dos estudos, associação entre maior capacidade de regulação dos pais, respostas mais apoiadoras às emoções e conversas sobre afetos. A maioria dos estudos era transversal, o que limita conclusões causais, mas o resultado reforça que aprender a lidar com emoções é também um processo relacional.


Quando a raiva infantil recebe apenas punição, a criança pode concluir que o afeto precisa desaparecer — ou escondê-lo até que seja impossível regulá-lo. Quando toda frustração é atendida imediatamente, também faltam oportunidades de aprender espera, limite e negociação.


Não existe educação emocional perfeita. Pais e cuidadores sentem raiva, falham e reparam. O elemento importante não é impedir qualquer conflito, mas mostrar que o vínculo pode sobreviver à diferença e que atos danosos exigem responsabilidade sem transformar a criança inteira em “má”.


Experiências precoces influenciam, mas não determinam. Relações posteriores, linguagem, cultura e trabalho clínico podem ampliar formas de reconhecer e expressar o afeto.


Por que dizer “estou com raiva” pode ameaçar o amor?


Algumas pessoas vivem a proximidade como obrigação de concordância. Se amam alguém, acreditam que não deveriam se irritar; se o outro as ama, deveria adivinhar necessidades e nunca frustrá-las. A raiva surge como prova de que o vínculo fracassou.


A ambivalência psíquica contraria essa fantasia. É possível amar e sentir raiva da mesma pessoa, desejar proximidade e precisar de distância, admirar alguém e ressentir-se de uma atitude. Aceitar a coexistência de afetos não resolve o conflito, mas impede que uma emoção momentânea precise apagar todo o vínculo.


A dificuldade aparece com força ao estabelecer limites. O artigo Por que dizer “não” provoca tanta culpa? mostra como recusar pode despertar medo de rejeição e necessidade de reparar imediatamente a desaprovação do outro.


Quando a raiva é proibida, o “não” talvez chegue tarde, depois de meses de concessões. A intensidade acumulada assusta o próprio sujeito e parece confirmar que limites são destrutivos. Aprender a reconhecer irritações menores permite comunicar antes que o conflito alcance o ponto de explosão.


Reprimir, ruminar ou descarregar: três destinos diferentes


Silenciar a expressão não elimina necessariamente o afeto. A pessoa pode continuar revivendo a cena, imaginando respostas, aumentando a tensão e transformando a raiva em ressentimento. Esse processo é diferente de escolher conscientemente esperar até que haja condições para conversar.


Uma meta-análise de 81 estudos encontrou associações consistentes entre mais raiva e estratégias como evitação, ruminação e supressão; aceitação e reavaliação apareceram associadas a menos raiva. A heterogeneidade entre os estudos foi alta, portanto os resultados não autorizam uma receita universal.


No outro extremo está a ideia de que é preciso “colocar tudo para fora”. Gritar, quebrar objetos ou bater em algo pode ser apresentado como descarga saudável. Uma revisão meta-analítica de 154 estudos com mais de 10 mil participantes encontrou que atividades que reduziam ativação fisiológica diminuíam raiva e agressão; atividades que aumentavam ativação não produziram o mesmo resultado geral.


Expressar não é descarregar sem mediação. Pode significar nomear o afeto, explicar o limite, escrever antes de conversar, pedir distância, elaborar uma fantasia ou construir uma ação responsável diante de uma injustiça.


Também não é necessário falar tudo a qualquer pessoa. Escolher tempo, lugar e interlocutor faz parte da regulação, não da falsidade.


A raiva pode aparecer no corpo?


Raiva costuma acompanhar aceleração cardíaca, tensão muscular, mudança na respiração, calor, inquietação e estreitamento da atenção. Essas respostas podem preparar o organismo para agir, mas variam entre pessoas e situações.


Perceber sinais iniciais ajuda a criar intervalo. Mandíbula rígida, voz alterada ou repetição mental de uma frase podem indicar que a capacidade de pensar está diminuindo. Sair temporariamente de uma discussão pode ser cuidado — desde que não seja usado como punição silenciosa e que exista possibilidade real de retomar o tema.


Não é correto atribuir automaticamente dores, pressão alta, problemas digestivos ou qualquer doença à “raiva reprimida”. Sintomas físicos precisam de avaliação médica. O artigo Quando o corpo fala: emoções podem aparecer como sintomas físicos? explica por que corpo e sofrimento psíquico podem se relacionar sem substituir diagnóstico clínico.


Observar o corpo não serve para provar uma causa emocional, mas para reconhecer ativação e decidir como proteger a si e aos outros antes de agir impulsivamente.


Raiva e limite: o afeto pode proteger algo importante


A raiva pode sinalizar que um direito, valor, espaço ou necessidade foi desconsiderado. Pessoas treinadas a agradar talvez percebam o corpo irritado antes de conseguir formular: “não quero”, “isso foi injusto” ou “não aceito ser tratado assim”.


Essa função não torna toda raiva justa. Um limite externo legítimo também pode produzir irritação. A pergunta clínica é dupla: o que o afeto procura proteger e como a pessoa interpreta a situação que o despertou?


Transformar raiva em limite exige passar do impulso à linguagem. Em vez de acusar a identidade do outro — “você é sempre egoísta” — pode ser mais preciso nomear acontecimento, efeito e pedido: “quando você decidiu sem me consultar, senti que meu lugar foi ignorado; preciso participar dessa decisão”.


Nem toda relação acolherá um limite, e comunicação clara não garante segurança. Em vínculos violentos, confrontar diretamente pode aumentar risco. Planejamento e rede de proteção são mais importantes do que uma fórmula de assertividade.


Quando a raiva se volta contra o próprio sujeito


Uma pessoa pode sentir raiva de alguém e concluir que ela própria é o problema. Em vez de reconhecer uma invasão, acusa-se de sensibilidade. Em vez de admitir decepção, pensa que exigiu demais. A energia do confronto retorna como autocensura.


Esse movimento pode preservar uma relação idealizada. Se o outro não falhou, resta imaginar que o sofrimento é defeito pessoal. Também pode proteger quem depende material ou emocionalmente de uma figura que não pode ser confrontada naquele momento.


Falar em raiva voltada contra si não significa explicar automaticamente tristeza, autolesão ou doença por uma única causa. Esses fenômenos são complexos e exigem avaliação cuidadosa. A hipótese só ganha sentido quando nasce das associações e da história do sujeito.


Na análise, reconhecer “eu estava com raiva” pode produzir alívio e culpa ao mesmo tempo. O trabalho não termina na descoberta do afeto; começa a investigar a quem ele se dirige, o que foi perdido e quais atos são possíveis agora.


Ressentimento não é simplesmente raiva guardada


Ressentimento envolve uma relação repetida com a ofensa. A cena é retomada, o outro permanece como devedor e o sujeito pode conservar uma posição moral que impede luto, negociação ou afastamento. Isso não significa que a ofensa não aconteceu.


Algumas injustiças não podem ser reparadas pelo responsável. Exigir que a pessoa “solte a raiva” pode reproduzir silenciamento. Elaborar não é declarar que nada ocorreu; é encontrar uma relação com o acontecimento que não mantenha toda a vida organizada pela dívida.


O artigo O Mal-Estar na Civilização: por que a vida em comum produz culpa? apresenta como Freud articula agressividade, culpa e as exigências da convivência social.


Na clínica, importa distinguir memória, denúncia, desejo de justiça, fantasia de reparação e repetição ressentida. Cada uma pede escuta diferente.


Raiva passiva: silêncio, atraso e ironia


Quando a expressão direta parece proibida, a hostilidade pode encontrar caminhos indiretos. A pessoa concorda e não cumpre, esquece repetidamente, usa ironia, retira afeto ou faz o outro descobrir sozinho que algo está errado.


Nem todo atraso ou esquecimento é agressão passiva. Interpretar comportamentos isolados sem contexto transforma conceito em acusação. O padrão precisa ser compreendido na relação e nas associações de quem o vive.


A via indireta pode proteger contra confronto, mas também torna a reparação difícil. O destinatário sente o efeito sem receber uma mensagem clara; quem age mantém a possibilidade de negar: “você entendeu errado”.


Reconhecer a raiva não obriga a confrontar imediatamente. Pode apenas permitir que o sujeito assuma internamente: “eu não queria fazer isso”, “eu quis punir” ou “não consegui dizer não”. A responsabilidade começa quando a ação deixa de parecer um acidente sem autor.


A raiva na transferência


Paciente e analista podem sentir irritação um com o outro. O paciente talvez viva um limite do enquadre como rejeição, perceba uma interpretação como invasiva ou encontre no analista a expectativa de uma autoridade anterior. O profissional também fala, falha e produz efeitos reais.


Tratar toda raiva do paciente como resistência é uma forma de não escutar. Às vezes, ele percebeu corretamente uma falha. Uma clínica responsável permite dizer “isso me deixou com raiva” e investigar o acontecimento sem transformar discordância em desobediência.


O artigo Transferência: por que tratamos pessoas novas como personagens do passado? explica como afetos antigos podem atualizar-se em relações presentes sem apagar a realidade do encontro atual.


A raiva também pode indicar que o tratamento tocou um ponto doloroso, que o paciente teme depender ou que uma mudança ameaça uma solução conhecida. Essas são hipóteses, não desculpas para tornar o analista sempre correto.


Contratransferência: quando o analista sente raiva


O analista não deixa de ter afetos ao ocupar uma função clínica. Pode sentir irritação, impaciência, medo ou desejo de punir. Negar essas respostas aumenta o risco de colocá-las em ato sob a forma de sarcasmo, frieza, interpretações humilhantes ou mudanças arbitrárias no enquadre.


Contratransferência não é autorização para revelar ao paciente tudo que o profissional sente. É material que precisa ser pensado: o que pertence à história do analista, o que foi produzido na relação e que informação clínica pode existir sem responsabilizar o paciente pela regulação emocional do profissional?


Análise pessoal e supervisão oferecem lugares para esse trabalho. Competência clínica inclui reconhecer quando a própria capacidade de escuta está comprometida e buscar apoio antes que o impasse se transforme em dano.


Como lidar com a raiva sem negá-la nem ferir?


Não existe uma sequência que funcione para todos, mas alguns princípios ajudam a criar intervalo entre afeto e ato:


  • reconheça os sinais de ativação antes do ponto de explosão;

  • interrompa temporariamente a interação quando houver risco de perder controle;

  • reduza a ativação com respiração mais lenta, pausa, ambiente seguro ou outra estratégia compatível;

  • evite dirigir, usar armas, álcool ou outras substâncias durante grande descontrole;

  • nomeie o acontecimento e o limite sem ameaçar ou humilhar;

  • diferencie pensamento, fantasia, vontade e decisão;

  • repare danos causados sem usar a raiva como desculpa;

  • procure avaliação profissional quando episódios são frequentes, intensos ou perigosos.


Uma meta-análise de 96 estudos sobre tratamentos psicológicos da raiva encontrou efeitos favoráveis em diferentes modalidades, com variação importante entre métodos e contextos. O dado indica que dificuldades persistentes podem ser trabalhadas; não permite escolher uma abordagem apenas por uma média geral.


Em uma situação segura, frases específicas ajudam mais do que julgamentos globais: “preciso de vinte minutos antes de continuar”, “não aceito que fale comigo dessa maneira” ou “eu gritei e isso foi inadequado; quero reparar e conversar sem ameaça”.


Regular não é tornar-se indiferente. É recuperar capacidade de pensar, escolher e responder pelo que se faz.


Quando a raiva exige cuidado urgente?


Procure ajuda profissional quando a raiva provoca agressões, ameaças, destruição, direção perigosa, uso de substâncias para perder controle, medo constante nos familiares, prejuízo importante ou sensação de que um ato violento pode acontecer. Avaliação pode envolver saúde mental, medicina e rede de proteção conforme o caso.


Se alguém está em perigo imediato, priorize distância e segurança. Não tente interpretar ou acalmar sozinho uma pessoa armada ou em comportamento violento. No Brasil, situações de emergência policial devem ser comunicadas pelo 190. Para orientação e denúncia de violência contra mulheres, o Ligue 180 funciona gratuitamente, 24 horas por dia.


Compreender a história de quem agride não retira sua responsabilidade nem exige que a vítima permaneça na relação. Tratamento para o autor da violência e proteção para quem sofre são necessidades diferentes.


Três cenas compostas: culpa, limite e responsabilidade


Os exemplos são fictícios e combinam situações comuns. Não representam pessoas identificáveis.


1. “Se eu ficar com raiva, serei igual a ele”


Um homem cresceu assistindo às explosões do pai. Na vida adulta, evita qualquer confronto até acumular ressentimento e desaparecer das relações. Na análise, começa a distinguir o afeto que sente dos atos que condena. Poder dizer “estou irritado” antes de se afastar transforma a raiva em informação, não em repetição da violência.


2. “Depois que digo não, preciso consertar tudo”


Uma mulher estabelece um limite com a família e passa horas enviando mensagens para tranquilizar todos. A culpa não prova que o limite foi errado; revela o medo de perder o lugar de cuidadora. O trabalho inclui tolerar que o outro fique frustrado sem retirar imediatamente o próprio pedido.


3. “Eu só quebrei porque estava fora de mim”


Uma pessoa destrói objetos durante discussões e apresenta a raiva como causa inevitável. A escuta reconhece intensidade, mas não elimina autoria. Avaliar riscos, interromper a convivência durante crises, reparar danos e buscar tratamento são parte da responsabilidade. Compreender não significa absolver.


Aprender a escutar a agressividade exige formação


O analista precisa acolher pensamentos e afetos hostis sem incentivar passagem ao ato, moralizar ou minimizar risco. Precisa diferenciar fantasia de plano, raiva de violência, culpa de responsabilidade e limite de retaliação.


Isso exige teoria para compreender agressividade, supereu, ambivalência, narcisismo e transferência. Exige análise pessoal para reconhecer a própria relação com conflito e autoridade. Exige supervisão para examinar manejo, risco e contratransferência.


Formação não oferece frases prontas para “acalmar” qualquer paciente. Desenvolve capacidade de escutar o sentido singular do afeto e, ao mesmo tempo, preservar realidade, ética e segurança.


Se compreender como raiva, culpa e agressividade aparecem na escuta despertou seu interesse, conheça a Formação em Psicanálise da ABRAFP.



Perguntas frequentes


Sentir raiva é normal?

Raiva é uma emoção humana que pode surgir diante de frustração, ameaça, injustiça ou limite. Sua presença não define caráter. O que exige responsabilidade é a forma como a pessoa interpreta o afeto e age a partir dele.

Qual é a diferença entre raiva, agressividade e violência?

Raiva é um afeto. Agressividade pode incluir forças de ataque, defesa, oposição e afirmação. Violência envolve atos ou padrões que causam dano, ameaça, coerção ou violação. Os fenômenos podem se relacionar, mas não são equivalentes.

Por que sinto culpa depois de ficar com raiva?

A culpa pode nascer do medo de perder amor, de um ideal de bondade sem conflito, de experiências nas quais demonstrar contrariedade era punido ou do temor de repetir uma violência conhecida. O sentido depende da história e da situação concreta.

Reprimir a raiva faz mal?

Silenciar nem sempre regula. Supressão, evitação e ruminação aparecem associadas a mais dificuldades com raiva em estudos, mas os efeitos variam conforme contexto e pessoa. Escolher esperar para falar com segurança é diferente de negar continuamente o afeto.

É saudável descarregar a raiva gritando ou quebrando objetos?

Não é uma recomendação segura. Pesquisas indicam mais benefício geral de estratégias que reduzem ativação do que de atividades que a aumentam. Quebrar objetos pode intimidar, causar dano e facilitar escalada. Afeto pode ser expresso sem ameaça.

Como saber se preciso de ajuda profissional para lidar com a raiva?

Procure avaliação quando episódios são frequentes, intensos, causam medo, agressão, ameaça, destruição, prejuízo ou sensação de perda de controle. Em risco imediato, afaste-se da situação e acione serviços de emergência.

Como a psicanálise trabalha a raiva?

A análise investiga o que desperta o afeto, a quem ele se dirige, como foi permitido ou proibido na história e quais destinos encontra no corpo, na culpa, na relação e nos atos. Reconhecer o sentido não elimina responsabilidade nem substitui medidas de segurança.


Conclusão


Sentir raiva não torna alguém violento nem mau. A emoção pode anunciar frustração, injustiça, medo, ferida narcísica ou necessidade de limite. Também pode distorcer interpretações e aproximar impulsos perigosos quando a capacidade de regulação diminui.


A tarefa não é escolher entre repressão e descarga. É construir intervalo suficiente para reconhecer, pensar, comunicar e responder pelos atos. Em alguns casos, isso significa dizer “não”. Em outros, admitir um erro, reparar dano, afastar-se de uma situação ou procurar tratamento.


A culpa pode funcionar como consciência de responsabilidade, mas também como proibição de existir em conflito. A análise procura distinguir essas formas. Uma impede violência; a outra exige que o sujeito jamais se irrite para continuar merecendo amor.


Quando a raiva encontra linguagem e limite, não precisa desaparecer para deixar de governar. Ela pode participar de uma vida em que diferença, ambivalência e conflito sejam possíveis sem humilhação, ameaça ou destruição.


Este artigo tem finalidade educativa e não substitui psicanálise, psicoterapia, avaliação psicológica, diagnóstico, tratamento médico ou atendimento de emergência. Se houver risco imediato de violência, procure um local seguro e acione os serviços de emergência da sua região; no Brasil, ligue 190.


 
 
 

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