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Por que a infância reaparece nos relacionamentos adultos?

26 de ago.
13 min de leitura
Duas pessoas adultas conversam enquanto suas sombras assumem formas infantis, representando memória, vínculo e repetição nos relacionamentos.

Uma mensagem demora a ser respondida e, antes que exista qualquer explicação, surge a certeza de que o outro perdeu o interesse. Uma discordância comum é sentida como ameaça de abandono. Um gesto de carinho produz alívio, mas também desconfiança. Em outra relação, a proximidade desejada se torna sufocante assim que acontece.


Por que a infância reaparece nos relacionamentos adultos? Porque as primeiras experiências de cuidado, frustração, proximidade e separação participam da formação de expectativas sobre o que esperar dos vínculos e de maneiras de se proteger. Elas não voltam como uma gravação intacta nem condenam alguém a repetir o passado. Reaparecem como sensibilidades, fantasias, interpretações, posições afetivas e defesas que entram em cena diante de pessoas novas.


Isso não significa que todo conflito amoroso venha da infância. Relações adultas também são moldadas pelo que acontece no presente: reciprocidade, respeito, comunicação, desigualdade, violência, condições materiais e escolhas de cada pessoa. Tampouco significa que toda experiência difícil tenha sido um “trauma”. A palavra exige cuidado e não deve substituir uma avaliação responsável.


A pergunta psicanalítica, portanto, não é “qual fato infantil explica tudo?”. É outra: como esta pessoa aprendeu a reconhecer amor, perigo, ausência, desejo e dependência — e o que dessa aprendizagem se atualiza agora?


A infância não retorna como uma fotografia


Quando adultos contam a própria infância, não abrem um arquivo imutável. A memória autobiográfica reúne vestígios de acontecimentos, emoções, narrativas familiares e significados construídos ao longo do tempo. Uma revisão sobre precisão e reconstrução da memória autobiográfica descreve a lembrança como um processo orientado por sentido, composto por traços verídicos e esquemas reconstrutivos continuamente atualizados.


Isso não quer dizer que “nada é verdade” ou que relatos de sofrimento devam ser desacreditados. Significa que lembrar não é reproduzir uma filmagem. A lembrança é uma experiência presente sobre algo passado, organizada pela linguagem, pela posição atual e pelo contexto no qual é narrada.


Na clínica, essa distinção é ética. O analista não deve sugerir acontecimentos, pressionar por uma memória oculta ou apresentar uma interpretação como prova histórica. A fala do paciente merece escuta sem que a análise se transforme em investigação policial ou fábrica de certezas.


O que retorna pode não ser uma cena recordada com clareza. Pode ser uma expectativa: “quando eu precisar, ninguém estará disponível”. Pode ser uma defesa: afastar-se antes de correr o risco de ser deixado. Pode ser uma posição: cuidar de todos para tentar garantir um lugar. Pode ser ainda uma maneira de interpretar ambiguidades, tomando silêncio por rejeição ou limite por desamor.


O que exatamente pode reaparecer nos vínculos adultos?


Alguns elementos costumam surgir combinados:


  • expectativas sobre disponibilidade, confiança e abandono;

  • formas de pedir proximidade ou de evitá-la;

  • estratégias para lidar com frustração, conflito e diferença;

  • imagens de si como digno, insuficiente, responsável ou descartável;

  • papéis familiares, como mediador, cuidador, invisível ou “filho perfeito”;

  • maneiras de reconhecer afeto, ameaça, autoridade e reparação;

  • fantasias sobre o que o outro pensa, deseja ou fará.


Nenhum item, isoladamente, demonstra uma causa infantil. Muitas reações são coerentes com o presente. Desconfiar de alguém que mente repetidamente não é um problema de apego. Sentir medo diante de controle e agressividade não é “projeção”. Estabelecer distância pode ser proteção legítima.


A investigação começa quando a intensidade, a repetição ou o significado da resposta parecem ultrapassar a situação atual — ou quando a mesma organização afetiva reaparece em relações muito diferentes.


Familiar não significa necessariamente seguro


É comum ouvir que as pessoas “escolhem parceiros iguais aos pais”. Essa frase é sedutora porque parece explicar tudo, mas costuma ser simplista. Ninguém seleciona relações por uma fórmula consciente e universal. Às vezes, a semelhança está menos nas características do parceiro e mais na dinâmica que se constrói.


Uma pessoa criada em um ambiente imprevisível pode se tornar muito atenta às mudanças de humor alheias. Em um relacionamento adulto, essa vigilância talvez a leve a antecipar conflitos, pedir garantias constantes ou interpretar neutralidade como ameaça. A resposta do parceiro, por sua vez, participa da cena: pode acolher, afastar-se, explorar a insegurança ou também reagir a partir de sua própria história.


O conhecido oferece um mapa, mesmo quando dói. A pessoa sabe como sobreviver à distância, à crítica ou à instabilidade porque precisou aprender. Uma relação estável, ao contrário, pode exigir recursos menos familiares: confiar, negociar necessidades, tolerar que o outro seja diferente e aceitar que proximidade não elimina incerteza.


Repetir não significa desejar sofrer. Muitas vezes, significa recorrer às soluções psíquicas disponíveis diante de algo que ainda não encontrou outra forma de elaboração.


Freud: recordar, repetir e elaborar


Em 1914, Sigmund Freud publicou Recordar, repetir e elaborar. O texto discute como certos aspectos da história não aparecem apenas como lembranças contadas. Eles podem ser atualizados em ações, posições e modos de relação — inclusive dentro do tratamento.


Uma pessoa pode afirmar que não se lembra de ter precisado conquistar atenção, mas organizar diferentes vínculos como se precisasse provar continuamente que merece permanecer. Outra pode conhecer todos os fatos da própria história e, ainda assim, repetir uma resposta que lhe causa sofrimento. Informação consciente e transformação psíquica não são equivalentes.


Por isso, elaborar não é encontrar uma explicação brilhante uma única vez. É reconhecer o padrão enquanto ele se produz, suportar a ambivalência, compreender sua função e construir outras possibilidades. Esse trabalho requer tempo porque uma defesa não é apenas um erro intelectual: ela pode ter protegido a pessoa em um momento no qual não havia recursos melhores.


Transferência: quando o presente recebe afetos do passado


Na psicanálise, transferência designa a atualização de expectativas, desejos, medos e formas de relação no encontro com outra pessoa, especialmente na relação analítica. Ela não é uma alucinação que apaga o presente. O analista é uma pessoa real, com atos e limites reais, mas também pode ocupar lugares constituídos em relações anteriores.


Fora da clínica, algo semelhante pode ocorrer quando uma demora, um tom de voz ou uma discordância adquirem um significado desproporcional. O parceiro atual não se transforma literalmente em uma figura do passado. Ele passa a ser percebido através de uma expectativa já carregada de afeto.


O conceito não deve ser usado para invalidar a experiência alheia: “isso é só transferência sua”. Antes de interpretar, é necessário examinar o que realmente aconteceu. A pergunta produtiva mantém as duas dimensões: o que o outro fez e que história tornou esse gesto especialmente significativo?


Klein: o mundo interno participa da maneira de encontrar o outro


Melanie Klein desenvolveu uma linguagem para pensar como experiências e fantasias relacionadas às primeiras figuras de cuidado formam um mundo interno. Para a tradição kleiniana, “objetos internos” não são pessoas em miniatura guardadas na mente, mas experiências emocionais internalizadas que influenciam percepções, pensamentos e sentimentos posteriores. A Melanie Klein Trust oferece uma apresentação introdutória do conceito.


Em momentos de grande ansiedade, pode ser difícil perceber o outro como uma pessoa inteira, capaz de amar e frustrar, aproximar-se e discordar. A experiência se divide: em um instante, o parceiro é idealizado como único capaz de salvar; no seguinte, uma falha o transforma em alguém inteiramente indiferente ou ameaçador.


Klein chamou atenção para processos como cisão, projeção e introjeção. Esses conceitos não devem virar acusações usadas em discussões. Dizer “você está projetando” raramente ajuda. Clinicamente, interessa observar como afetos intoleráveis são organizados e como a capacidade de sustentar ambivalência pode se ampliar.


Amadurecer não significa deixar de sentir raiva, dependência ou medo. Significa poder reconhecer que amor e frustração coexistem, que o outro não é inteiramente bom nem inteiramente mau e que conflitos não precisam destruir o vínculo ou apagar limites.


Winnicott: confiança, continuidade e ambiente suficientemente bom


Donald Winnicott destacou a importância do ambiente real de cuidado para o desenvolvimento emocional. Sua ideia de cuidado “suficientemente bom” não descreve perfeição. Refere-se a uma adaptação inicial sensível que, gradualmente, permite à criança tolerar pequenas falhas e encontrar a realidade. O Dicionário de Psicologia da APA resume esse conceito histórico.


Na leitura winnicottiana, a confiabilidade do ambiente contribui para uma sensação de continuidade de existência. Quando o cuidado é demasiadamente intrusivo, imprevisível ou incapaz de reconhecer gestos espontâneos, a adaptação pode se tornar defesa. A pessoa aprende a corresponder, antecipar e funcionar, enquanto necessidades próprias permanecem pouco reconhecidas.


Nos relacionamentos adultos, isso pode aparecer como dificuldade de saber o que se deseja, medo de desagradar, sensação de existir apenas para atender o outro ou necessidade de esconder vulnerabilidade. Não se trata de culpar uma mãe concreta por toda a vida psíquica. “Ambiente” inclui funções de cuidado desempenhadas por diferentes pessoas, condições sociais, saúde, recursos e acontecimentos que atravessam uma família.


Uma relação adulta também não deve reproduzir a dependência infantil. O parceiro não é responsável por adivinhar todas as necessidades nem por reparar sozinho toda falha anterior. O conceito ajuda a pensar a importância de confiabilidade, presença e espaço para espontaneidade — com reciprocidade e responsabilidade entre adultos.


O que a pesquisa sobre apego permite afirmar


A teoria do apego e a psicanálise possuem histórias, métodos e vocabulários distintos, embora compartilhem interesse pelas primeiras relações. Pesquisas longitudinais ajudam a evitar dois extremos: negar qualquer continuidade entre infância e vida adulta ou transformar o início da vida em destino inevitável.


Um estudo prospectivo que acompanhou participantes da infância até aproximadamente os 30 anos encontrou associações entre experiências interpessoais precoces e ajustamento em relações amorosas adultas, mas o efeito conjunto foi modesto. Sensibilidade materna observada, qualidade das amizades e qualidade da relação amorosa dos cuidadores explicaram uma parcela limitada da variação posterior. Os resultados estão disponíveis no PubMed.


Outro acompanhamento de três décadas encontrou relações entre qualidade do vínculo mãe-filho, amizades na infância e orientações de apego adultas. As associações variaram conforme o domínio e também foram, em grande parte, modestas. O estudo reforça que experiências com amigos e outros vínculos participam do desenvolvimento, não apenas a relação com os pais. Consulte o resumo científico.


Uma meta-análise de 127 trabalhos encontrou estabilidade média do apego entre infância e início da vida adulta, mas não encontrou estabilidade significativa nos intervalos superiores a 15 anos. Resultados assim não autorizam prever a vida amorosa de uma pessoa a partir de uma classificação infantil.


A conclusão mais responsável é probabilística: experiências precoces podem influenciar, mas não determinam. Temperamento, amizades, cultura, acontecimentos, relações amorosas, terapia, condições sociais e escolhas posteriores também participam. O passado tem peso; não possui soberania absoluta.


Apego não é identidade nem diagnóstico


Nas redes sociais, “ansioso”, “evitativo” e “desorganizado” muitas vezes aparecem como tipos fixos de personalidade. Essa linguagem pode oferecer reconhecimento inicial, mas também empobrecer relações complexas. Pessoas não são um único estilo em todas as situações, e instrumentos de pesquisa não devem ser convertidos em diagnósticos por vídeos ou questionários informais.


Alguém pode se sentir seguro com amigos e ansioso em uma relação amorosa específica. Pode reagir de forma diferente diante de parceiros responsivos ou inconsistentes. Pode aprender novas maneiras de comunicar necessidades e tolerar separações. A relação atual não é apenas palco para o passado; ela também produz experiências novas.


Usar o rótulo para explicar tudo — “sou evitativo, por isso desapareço” — pode retirar responsabilidade pelos próprios atos. Usá-lo contra o outro — “você é ansioso demais” — pode transformar uma hipótese em desqualificação. Conceitos são úteis quando abrem investigação, não quando encerram a conversa.


Trauma infantil e relacionamentos: associação não é destino


Negligência, abuso e violência na infância podem afetar confiança, regulação emocional e segurança nos vínculos. Uma meta-análise recente sobre maus-tratos e apego adulto encontrou associações com ansiedade e evitação, acompanhadas de importante variabilidade entre estudos.


Essa associação não permite dizer que toda pessoa que sofreu violência terá relações instáveis, nem que toda dificuldade amorosa prova um trauma esquecido. Sobreviventes constroem trajetórias diversas. Redes de apoio, vínculos protetivos, recursos sociais e cuidado profissional podem participar de processos de recuperação.


Também é perigoso romantizar a repetição. Permanecer em uma relação violenta não deve ser explicado apenas como atração inconsciente pelo familiar. A responsabilidade pela violência pertence a quem a pratica. Quando há ameaça, controle, perseguição, agressão ou medo, a prioridade é segurança e acesso à rede de proteção — não uma interpretação sobre infância.


No Brasil, mulheres podem procurar orientação pelo Ligue 180, serviço público gratuito disponível 24 horas. Em situação de emergência ou risco imediato, a orientação oficial é acionar a Polícia Militar pelo 190.


Três cenas para compreender sem diagnosticar


A mensagem sem resposta. Depois de algumas horas, uma pessoa sente pânico e envia várias mensagens. Na infância, ausências eram imprevisíveis e perguntas não recebiam resposta. A história pode ajudar a compreender a intensidade, mas o comportamento atual do parceiro também importa. Ele é geralmente confiável ou usa silêncio para punir? A clínica não escolhe uma explicação antes de escutar as duas dimensões.


A proximidade que ameaça. Alguém deseja intimidade, mas perde interesse quando o vínculo se torna recíproco. Talvez a distância tenha protegido contra invasão, dependência ou decepção. Talvez aquele relacionamento específico seja incompatível. A repetição só pode ser formulada ao longo de uma história, não inferida de um episódio.


A pessoa que nunca pede. Um adulto cuida de todos e afirma não precisar de nada. Quando recebe atenção, sente vergonha. Ele pode ter aprendido cedo que necessidades sobrecarregavam o ambiente ou que reconhecimento dependia de ser “fácil”. O trabalho não é obrigá-lo a depender, mas tornar possível reconhecer desejos, limites e escolhas antes encobertos pela adaptação.


Essas cenas são compostas e não descrevem pessoas reais. Elas mostram como a mesma conduta pode reunir passado, presente, fantasia, realidade e resposta do outro.


Como perceber quando uma reação antiga entrou na relação atual


Em vez de perguntar imediatamente “isso vem de qual trauma?”, pode ser mais útil descrever a sequência:


  1. O que aconteceu de modo observável?

  2. Que significado foi atribuído ao gesto?

  3. Qual emoção e sensação corporal surgiram?

  4. Que ação veio em seguida: cobrar, fugir, agradar, atacar, silenciar?

  5. A resposta protegeu de quê?

  6. O que, na realidade atual, confirma ou contradiz a interpretação?


Essa observação não serve para controlar sentimentos. Ela cria uma pequena distância entre acontecimento e certeza. Nessa distância, torna-se possível reconhecer tanto uma sensibilidade antiga quanto uma situação presente que exige limite.


Conversas podem ajudar quando existe segurança e reciprocidade. Falar em primeira pessoa — “quando isso acontece, eu imagino que...” — costuma ser diferente de apresentar a interpretação como acusação. Ainda assim, comunicação não resolve abuso, coerção ou desprezo persistente. Nenhuma técnica de diálogo obriga alguém a permanecer em uma relação nociva.


O passado pode ganhar outros destinos


Se a infância participasse dos relacionamentos como roteiro fechado, nenhuma mudança seria possível. A experiência clínica e os estudos sobre continuidade e mudança não sustentam esse determinismo. Padrões podem ser persistentes, mas relações posteriores também oferecem confirmação, ruptura, reparação e aprendizagem.


Uma amizade confiável pode ensinar que conflito não significa abandono. Um parceiro capaz de respeitar limites pode tornar a proximidade menos ameaçadora. A parentalidade pode reabrir lembranças e também criar escolhas diferentes. A análise pode permitir que expectativas silenciosas ganhem palavras e deixem de comandar toda situação como evidências indiscutíveis.


Mudar não é apagar o passado nem fabricar uma infância ideal. É ampliar a liberdade diante dele. A pessoa talvez continue sensível a determinadas ausências, mas pode reconhecer o gatilho, avaliar o presente e escolher uma resposta menos automática. Pode deixar de exigir que o outro repare algo que não viveu, sem abandonar a necessidade legítima de respeito e cuidado.


O que a psicanálise procura escutar


A psicanálise não inicia com um questionário destinado a encontrar culpados na família. Ela escuta como a pessoa narra relações, quais palavras se repetem, o que provoca silêncio, que expectativas surgem e como essas formas aparecem também no encontro analítico.


Freud oferece uma linguagem para repetição, transferência e elaboração. Klein ajuda a pensar o mundo interno, a projeção, a cisão e a capacidade de integrar amor e frustração. Winnicott destaca ambiente, confiabilidade, espontaneidade e formas de adaptação. Essas teorias não são versões idênticas de uma mesma explicação. Conhecer suas diferenças evita misturas superficiais e interpretações automáticas.


O analista também precisa reconhecer os limites de sua escuta. Sintomas intensos podem exigir avaliação de outros profissionais. Violência requer proteção e recursos concretos. Questões jurídicas, médicas e sociais não devem ser dissolvidas em simbolismo.


Formação em psicanálise: diferentes teorias para uma escuta responsável


Para quem deseja se formar em psicanálise, compreender a presença da infância na vida adulta exige mais do que memorizar conceitos. É necessário estudar como cada autor formula desenvolvimento, fantasia, ambiente, defesa, transferência e mudança — e aprender a não aplicar essas ideias como etiquetas prontas.


A formação teórica oferece mapas. A análise pessoal permite ao futuro analista reconhecer como a própria história participa da escuta. A supervisão ajuda a examinar intervenções, impasses e riscos de interpretar cedo demais. Juntas, essas dimensões sustentam uma prática que respeita a singularidade e não confunde hipótese clínica com verdade histórica.


Na formação, o aluno conhece diferentes teorias psicanalíticas sobre infância, vínculo e constituição do sujeito.



Perguntas frequentes


A infância determina os relacionamentos adultos?

Não. Experiências precoces podem influenciar expectativas, defesas e maneiras de viver proximidade, mas não determinam um destino. Amizades, relações posteriores, cultura, acontecimentos, recursos sociais, terapia e escolhas também participam do desenvolvimento.

Todo problema de relacionamento vem de um trauma infantil?

Não. Conflitos podem envolver incompatibilidade, comunicação, desigualdade, condições materiais, comportamento presente e muitos outros fatores. Nem toda experiência difícil é trauma. Quando essa hipótese é relevante, deve ser investigada com cuidado, sem autodiagnóstico ou sugestão de memórias.

Por que sinto medo de abandono mesmo quando o parceiro é presente?

Uma relação confiável pode ativar expectativas formadas em experiências anteriores, e ambiguidades comuns podem receber significados intensos. Também é preciso avaliar se a presença atual é realmente consistente. Uma escuta profissional pode ajudar a diferenciar história, fantasia e realidade do vínculo.

Pessoas escolhem parceiros parecidos com os pais?

Não existe uma regra universal. Às vezes, o que se repete não é uma característica do parceiro, mas uma posição afetiva ou dinâmica relacional: buscar aprovação, antecipar rejeição, cuidar sem pedir ou afastar-se diante da proximidade. Cada história precisa ser examinada singularmente.

Estilo de apego é um diagnóstico?

Não. Categorias e dimensões de apego são construções teóricas e de pesquisa, não diagnósticos obtidos por vídeos ou questionários informais. As respostas podem variar entre relações e ao longo da vida. O conceito é mais útil como hipótese de investigação do que como identidade fixa.

A psicanálise precisa recuperar memórias esquecidas?

Não. A análise não depende de revelar uma cena escondida que explicaria tudo. Memórias autobiográficas são reconstrutivas, e práticas sugestivas podem produzir falsas certezas. A psicanálise trabalha com lembranças, fantasias, repetições, afetos e sentidos que aparecem na fala, sem converter interpretação em prova factual.

É possível mudar padrões formados na infância?

Sim, embora mudanças profundas possam exigir tempo. Reconhecer sequências repetidas, elaborar defesas, viver relações diferentes e construir novas respostas pode ampliar a liberdade. Isso não apaga a história; modifica a posição que a pessoa ocupa diante dela.


A infância influencia, mas o presente também responde


A infância reaparece menos como lembrança perfeita do que como modo de antecipar o que um vínculo pode trazer. Ela está na pergunta silenciosa sobre ser amado, na rapidez com que um limite vira rejeição, na dificuldade de confiar e na necessidade de corresponder para não perder lugar.


Mas o presente não é simples repetição. Cada relação envolve duas pessoas reais, condições concretas e possibilidades que não existiam antes. O parceiro atual pode confirmar uma expectativa antiga, contrariá-la ou criar uma situação inteiramente nova. O sujeito também pode reconhecer automatismos, estabelecer limites e assumir escolhas diferentes.


Compreender a história não é absolver comportamentos prejudiciais nem condenar famílias. É transformar uma reação que parecia natural e inevitável em algo que pode ser interrogado. Quando o passado ganha palavras, talvez deixe de precisar reaparecer sempre da mesma maneira.


Este artigo tem finalidade educativa e não oferece diagnóstico nem substitui acompanhamento profissional. Situações de violência, sofrimento intenso ou prejuízo persistente exigem avaliação e suporte apropriados.


 
 
 

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