Filosofia Pré-Socrática: As Origens do Pensamento – Quando o Homem Aprendeu a Perguntar
- Deivede Eder Ferreira

- 4 de out. de 2025
- 5 min de leitura

Há algo de misterioso no instante em que o homem ergueu os olhos para o céu e, em vez de temer os deuses, começou a pensar. Esse instante — silencioso, quase invisível — marca o nascimento do que hoje chamamos de filosofia.
Antes de Sócrates, Platão e Aristóteles, antes dos diálogos e das escolas, existiram homens que olharam para o mundo e ousaram perguntar o que ninguém havia perguntado: O que é o ser? De onde viemos? O que sustenta tudo o que existe? Foram eles — os pré-socráticos — que abriram o caminho da razão.
O nascimento do pensamento ocidental
O livro “Filosofia Pré-Socrática: As Origens do Pensamento, de Tales a Heráclito”, do psicanalista e escritor Deivede Eder Ferreira, é uma viagem ao tempo em que pensar era um ato de coragem. Cada capítulo é narrado de maneira singular, dando voz aos próprios filósofos — Tales, Anaximandro, Parmênides, Heráclito e tantos outros — como se o Espírito do Pensamento falasse através deles.
Essa escolha literária dá ao leitor uma experiência rara: não apenas ler sobre filosofia, mas ouvir o nascimento da razão. O livro combina rigor conceitual com uma narrativa poética e simbólica, transformando ideias em presenças vivas, capazes de atravessar séculos e ainda nos tocar.
Do mito ao logos
Durante milênios, o homem explicou o mundo por meio dos deuses. O trovão era a fúria de Zeus; o amor, a obra de Afrodite; a morte, o reino sombrio de Hades. Mas, em algum ponto da história, algo mudou. Um homem em Mileto — Tales — olhou para o rio e pensou: “Tudo é água”.
Essa simples frase representou uma revolução. Não porque ele tivesse acertado na substância, mas porque ousou buscar uma causa natural, e não divina. A partir dali, o mundo deixou de ser um palco dos deuses e passou a ser um campo de investigação humana.
É esse instante — o nascimento do logos, a razão — que o livro de Deivede Eder Ferreira reconstrói com beleza e profundidade. Em cada página, o leitor testemunha a lenta transformação do mito em pensamento, da crença em pergunta, do medo em curiosidade.
Os que falaram antes do tempo
Os pré-socráticos foram muitos, mas unidos por um mesmo espanto. Para Anaximandro, o princípio de tudo não era a água de Tales, mas o ápeiron, o infinito sem forma que dá origem a todas as coisas. Anaxímenes acreditava que o ar — o sopro — era o que unia o homem e o cosmos. Pitágoras viu nos números uma harmonia divina; Xenófanes riu dos deuses com rosto humano; Parmênides afirmou que o Ser é eterno e imóvel, e Heráclito respondeu dizendo que tudo flui, que nada permanece.
Cada um deles, à sua maneira, tentou capturar a alma do real — e, sem saber, fundaram o pensamento ocidental. E é essa pluralidade de vozes, essa diversidade de intuições, que o livro faz renascer com vigor contemporâneo.
A ponte entre o antigo e o moderno
Em tempos de ruído e superficialidade, voltar às origens é um ato de resistência. Ler os pré-socráticos é como escutar o primeiro suspiro da consciência — aquele que, ainda confuso e deslumbrado, tenta compreender o que é existir. Mas Deivede Eder Ferreira não os apresenta como relíquias distantes; ele os faz dialogar com o presente.
Sua formação em psicanálise traz um olhar original: o de que o nascimento do pensamento racional é também o nascimento do sujeito. Assim como o homem aprendeu a olhar o mundo com distância e reflexão, o indivíduo aprende a olhar a si mesmo com consciência e desejo. O livro revela que a filosofia e a psicanálise partilham a mesma origem: a inquietação diante do enigma da vida.
Um livro para pensar e sentir
O texto de “Filosofia Pré-Socrática: As Origens do Pensamento” é ao mesmo tempo didático e literário. Não se limita a expor ideias — ele as encena, como se o pensamento ganhasse corpo e voz. Cada filósofo fala em primeira pessoa, permitindo ao leitor mergulhar em sua visão do mundo. Tales observa a água; Parmênides caminha pela estrada do Ser; Heráclito contempla o fogo e o fluxo.
O resultado é um livro que pode ser lido de várias formas: como introdução à filosofia, como ensaio poético ou como meditação espiritual sobre o próprio ato de pensar.
O diálogo entre mito e razão
Há uma beleza trágica no gesto dos primeiros filósofos. Eles abandonaram o conforto do mito — as explicações prontas, os deuses familiares — para se lançarem no desconhecido. O mito protege; a razão, desnuda. E foi nesse desnudamento que o homem descobriu sua liberdade.
O livro de Deivede Eder Ferreira nos lembra que a filosofia nasce de uma perda: a perda da certeza. Mas é dessa perda que surge o espanto, e do espanto nasce a sabedoria. Cada página convida o leitor a reviver esse momento inaugural, em que a pergunta é mais valiosa do que a resposta.
Por que ler os pré-socráticos hoje
Vivemos em um tempo que idolatra a velocidade e o esquecimento. Pensar se tornou um luxo, e o silêncio — um gesto subversivo. Os pré-socráticos, ao contrário, habitavam o tempo do espanto, em que a observação era uma forma de adoração. Ler sobre eles é reaprender a olhar.
Ao revisitar esses pensadores, o livro nos faz perceber que o pensamento não envelhece: ele apenas muda de forma. O logos que nasceu com Tales ainda vive em cada tentativa humana de compreender o mundo — na ciência, na arte, na filosofia e na própria psicanálise.
O retorno às origens
O projeto de Deivede Eder Ferreira não é apenas intelectual; é também existencial. Ele propõe um retorno à origem, não como nostalgia, mas como recomeço. Voltar às perguntas de Tales, Heráclito e Parmênides é reencontrar a essência do que significa ser humano. Pensar não é acumular respostas — é continuar perguntando com beleza e coragem.
Nesse sentido, “Filosofia Pré-Socrática: As Origens do Pensamento” é mais do que um livro: é um espelho. Ao ler, o leitor se vê refletido nos antigos e percebe que, no fundo, as grandes perguntas continuam as mesmas. Mudam os séculos, os mitos e as linguagens — mas o espanto permanece.
Um convite à reflexão
Ler este livro é uma experiência de reencontro. Com a história, com o pensamento, e consigo mesmo. Em um mundo saturado de informações, reencontrar o silêncio que pensa é um privilégio raro. Cada página parece dizer: “Pense — porque pensar ainda é o ato mais humano que existe”.
A ABRAFP orgulha-se de apresentar uma obra que devolve à filosofia o que ela tem de mais puro: o espanto original. É uma leitura para quem busca não apenas conhecimento, mas sentido.
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Descubra o instante em que o homem aprendeu a pensar. E perceba que, de alguma forma, esse instante ainda acontece — toda vez que você se permite perguntar.




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