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A Substância: Uma Análise Psicológica e Psicanalítica do Corpo Que o Ideal Devora

25 de nov. de 2025
7 min de leitura

Este artigo é assinado por Deivede Eder Ferreira, autor disponível na Amazon em https://www.amazon.com.br/stores/author/B0BZM6LHMH


Há filmes que passam diante de nós como distração. E há filmes que passam através de nós como uma revelação incômoda — daquelas que rearranjam silenciosamente o modo como olhamos o espelho, o tempo e o próprio corpo. A Substância pertence a esta última categoria. Ele não quer apenas ser visto: quer nos ver. Quer examinar o que fazemos com nossos desejos, nossos medos, nossas tentativas de esconder a própria finitude. Quer revelar o pacto silencioso que fazemos diariamente com a tirania da juventude.


O filme de Coralie Fargeat é um estudo clínico da ferida narcísica contemporânea. Mas não do narcisismo banal — daquele que se veste de selfie e filtro — e sim de seu movimento mais profundo: o narcisismo como dor, como perda, como esforço contínuo de sustentar um ideal que exige sempre mais do que podemos dar.


O que está em jogo não é apenas “ficar jovem”. É algo mais radical: é o colapso da subjetividade quando o corpo deixa de ser lugar de existência e passa a ser apenas palco para o olhar do Outro. E, nesse sentido, A Substância é menos um filme e mais um diagnóstico. Um diagnóstico que se escreve na carne deteriorada da protagonista, na violência do duplo jovem que a persegue e na monstruosidade final que irrompe quando o corpo real ousa falar.


I. A Juventude Como Cenário da Crueldade

A primeira violência que o filme revela não está no sangue, nem na carne exposta, nem nos gestos grotescos. Está na cena silenciosa da demissão de Elisabeth Sparkle, interpretada por Demi Moore. O momento em que ela percebe que não perdeu apenas um emprego: perdeu o lugar simbólico onde existia. A televisão não a rejeita por incompetência ou falta de talento — ela a rejeita por algo muito mais íntimo: seu corpo não é mais jovem o suficiente para ser visto.


É aqui que a psicologia e a psicanálise começam a se insinuar na narrativa. Porque o que acontece não é apenas externo. O olhar do apresentador, do programa, do público e da indústria desperta o olhar interno mais cruel: aquele que transforma o corpo em erro, o tempo em falha, a ruga em sentença.


A juventude, nesse universo, não é idade — é moeda. E a perda dessa moeda não é perda de valor; é expulsão do mercado da existência.


Coralie Fargeat revela algo que muitos sentem mas raramente verbalizam: no regime estético contemporâneo, o corpo envelhecido é tratado como uma espécie de vergonha pública, uma inconveniência visual que precisa ser escondida ou corrigida.


II. A Substância Como Significante Mestre

Quando Elisabeth aceita submeter-se ao procedimento secreto que cria uma versão jovem de si mesma, ela não está apenas assinando um contrato de ficção científica. Está aceitando um contrato ontológico. A “substância” não é apenas uma tecnologia; é um Significante-Mestre que ordena uma reorganização completa da subjetividade.


Ela promete uma juventude nova, mas ao preço de algo muito mais profundo: a divisão radical do sujeito.


Surge Riley: não como filha, não como clone, não como produto — mas como ideal.A versão jovem perfeita que nunca falha, nunca treme, nunca duvida.


No vocabulário freudiano, Riley é o Ideal do Eu encarnado. Aquilo que o sujeito não é, mas acredita que deveria ser. Aquilo contra o qual o sujeito se mede e sempre perde.

A psicanálise sempre soube que o ideal é mortífero. Não porque seja errado ter metas, mas porque o ideal não tolera a falta. E, onde não há tolerância para a falta, não há espaço para o sujeito.


Riley não tem rugas, mas também não tem história. Não tem marcas, mas também não tem alma. É perfeita, e por isso mesmo, desumana.


III. Os Velhos Saltitantes: O Sonho Patético da Eterna Juventude

Talvez uma das cenas mais perturbadoras do filme seja a dos idosos correndo, pulando, dançando com corpos flexíveis demais, velozes demais, falsos demais. Há algo de profundamente antinatural — e, ao mesmo tempo, profundamente familiar — naquelas imagens.


Porque o que vemos ali não é o triunfo da juventude sobre o tempo, mas a negação histérica da própria história.


Aqueles corpos não rejuvenescem: eles fingem. Fingem vitalidade, fingem energia, fingem pertencimento a uma cultura que exige brilho sem cansaço. Corpos que querem ser jovens sem suportar o custo simbólico da juventude. Corpos que querem ser suaves sem suportar a vulnerabilidade. Corpos que querem ser ágeis sem suportar a espera.


E é por isso que soam patéticos e trágicos: são corpos tentando habitar uma temporalidade que já não lhes pertence.


Do ponto de vista lacaniano, é a vitória do imaginário sobre o simbólico. A imagem vence a história. O brilho vence a experiência. A fachada vence a profundidade.

Mas toda vitória da imagem sobre o simbólico é, cedo ou tarde, uma derrota do sujeito.


IV. Andar em Grupo: A Massa Narcísica e o Silêncio da Diferença

Eles andam juntos porque perderam a singularidade. Porque a juventude, quando se torna tirania, só pode ser vivida como imitação. Porque o grupo oferece a ilusão de que, se todos performarem a mesma idade inexistente, ninguém precisará enfrentar a própria velhice.


Psicologicamente, essa cena expõe fenômenos conhecidos:– conformidade estética,– comparação constante,– medo de exclusão,– dissolução da identidade.


Do ponto de vista da psicanálise, o que aparece ali é a formação de uma massa narcísica, como descreveu Freud em Psicologia das Massas: o sujeito sacrifica sua singularidade para pertencer à imagem coletiva. Ele não é mais um “eu”, mas uma peça do espelho onde todos tentam acreditar que ainda brilham.


Mas o preço do pertencimento é o apagamento do sujeito.


V. A Jovem Perseguindo a Velha: O Ideal Como Predador

A cena da perseguição é brilhante não apenas como composição cinematográfica, mas como metáfora psíquica. Não é a velha correndo atrás da juventude perdida. É o ideal correndo atrás do sujeito.


É a versão perfeita caçando a versão verdadeira.

A psicanálise sempre advertiu que o ideal, quando liberto de sua função organizadora, se torna um predador interno. Ele vigia, acusa, julga, exige.


O corpo jovem de Riley não corre porque quer liberdade. Corre porque quer eliminar a prova viva da imperfeição de Elisabeth. Corre porque a existência do corpo real ameaça a legitimidade do ideal. Corre porque o ideal só existe enquanto a falha permanece escondida.


E essa é a verdade mais cruel do filme: o ideal não deseja o sujeito. O ideal deseja a morte do sujeito.


VI. A Jovem Muda nas Costas: O Peso Insuportável do Ideal que Não Fala

Há uma imagem, quase insuportável, que revela a essência do horror: Riley, a versão jovem, colada às costas de Elisabeth, como um parasita, um fardo, um apêndice perfeito e mudo.

A mudez é o detalhe crucial.


O ideal não fala porque o ideal não tem interioridade. O ideal não deseja — exige. O ideal não dialoga — ordena. O ideal não pergunta — acusa.


Na teoria lacaniana, Riley é o objeto a do olhar — aquilo que captura, fascina e escraviza o sujeito. Um objeto que não tem voz própria, mas carrega a voz silenciosa do supereu cultural: “Você deve ser jovem. Você deve ser perfeita. Você deve ser desejável. Você deve…”.


Carregar Riley nas costas é carregar esta voz colada à pele, exigindo, medindo, comparando, devorando aos poucos a energia psíquica necessária para existir.

Nenhum humano suporta carregar o próprio ideal por muito tempo. Quando tenta, adoece.


VII. A Festa: Quando o Corpo Real Ousa Falar e se Torna Monstro

No ápice simbólico do filme, Elisabeth tenta falar — não como imagem, mas como sujeito. E, no instante em que a palavra volta ao corpo envelhecido, algo se rompe.

O que surge é um monstro.


Um monstro não porque ela seja feia.

Mas porque, em uma cultura obcecada por juventude e performance, o corpo real torna-se um escândalo.


O monstro é a ruga que aparece sem pedir licença. É a lágrima que borra a maquiagem perfeita. É a carne que não obedece à lente. É o envelhecimento que insiste em existir apesar do decreto social de que deve ser escondido.


A monstruosidade é a verdade que retorna quando o imaginário se desfaz. É o real do corpo aparecendo, sem pedir permissão.

E o filme registra essa irrupção não como erro estético, mas como gesto político: o corpo real, quando fala, desmonta toda a ficção do ideal.


VIII. A Insurreição da Carne: O Real Como Última Defesa Contra o Ideal

No clímax brutal, as versões jovem e velha se fundem em um espetáculo de carne, sangue e horror. Para muitos, é uma cena grotesca. Para outros, é o ponto exato onde o filme deixa de ser metáfora e torna-se denúncia.


A carne explode porque a imagem não é capaz de contê-la. O real retorna porque o ideal tentou calá-lo por demais. A violência do corpo é a reação natural a décadas de violência simbólica.


O horror corporal, aqui, não é exagero: é linguagem. Linguagem daquilo que a sociedade tenta calar. Linguagem daquilo que todos tentamos esconder. Linguagem daquilo que, silenciosamente, está morrendo dentro de nós quando aceitamos viver sob o peso do ideal.


IX. O Corpo Que o Ideal Devora

No fim de A Substância, não resta dúvida: o corpo ideal não liberta — escraviza. O corpo ideal não inspira — humilha. O corpo ideal não sustenta — consome.


E aquilo que consome, consome pela raiz: consome a voz, consome a singularidade, consome o desejo, consome a história, consome a existência.

O ideal devora o sujeito. E o que sobra é apenas uma casca brilhante, mas vazia.


X. Conclusão: A Ética da Carne

A Substância não é um filme sobre envelhecer. É um filme sobre desaparecer. Sobre o risco de desaparecer dentro daquilo que esperam que sejamos. Sobre a necessidade de recuperar o corpo real — com suas falhas, seus limites, suas rugas, seus silêncios, suas dores — como último território onde ainda podemos existir.


O corpo real não vence o ideal pela força. Vence porque é vivo. Vence porque é imperfeito. Vence porque não precisa de aplauso.


O corpo real é a única substância que nos resta.

E, talvez, a única que vale a pena sustentar.


Se este artigo tocou algo em você, aprofunde o olhar: conheça o Psicanálise em Cena: 50 Dicas de Filmes Psicanalíticos, disponível na Amazon. Uma viagem pelo cinema como espelho do inconsciente.


Bibliografia:

BORDO, Susan. Unbearable Weight: Feminism, Western Culture and the Body. Berkeley: University of California Press, 1993.


FARGEAT, Coralie. The Substance. Filme. França/Estados Unidos: Universal Pictures, 2024.


FREUD, Sigmund.— Sobre o Narcisismo: Uma Introdução (1914). In: FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1976.— O Estranho (Das Unheimliche) (1919). In: FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1976.— Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921). In: FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1976.


HAN, Byung-Chul.— A Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.— A Sociedade da Transparência. Petrópolis: Vozes, 2017.


KEHL, Maria Rita.— Deslocamentos do Feminino. São Paulo: Boitempo, 2010.— O Tempo e o Cão: A Atualidade das Depressões. São Paulo: Boitempo, 2009.


LACAN, Jacques.— O Seminário, Livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.— Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.


SENNETT, Richard. A Corrosão do Caráter: As Consequências Pessoais do Trabalho no Novo Capitalismo. Rio de Janeiro: Record, 1999.

1 comentário

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Mitchell
07 de ago.

This title immediately grabbed me. "The Substance: A Psychological and Psychoanalytic Analysis of the Body That the Ideal Devours" – it's so evocative, and honestly, a little unsettling in the best way. It made me think about a period a few years back when I was really struggling with body image. I'd see these curated images everywhere, online and in magazines, and it felt like my own physical reality was constantly falling short of some unattainable standard https://www.cqu.edu.au/ I remember feeling this intense pressure to conform, to mold myself into something I wasn't, and it was exhausting. It wasn't just about looking a certain way; it felt like my entire worth was tied to this perfect, idealized version of myself…


bsb007

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