Masculino e Feminino no Mundo Contemporâneo
- Deivede Eder Ferreira

- há 5 dias
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O dia em que a masculinidade precisou sentar no divã
Há insultos que chegam com a pretensão de ferir, mas chegam atrasados.
Eles batem à porta usando roupas velhas, conceitos mofados e uma segurança cômica típica de quem ainda acredita que a masculinidade é um móvel antigo da sala: pesado, escuro, intocável e herdado de algum avô que nunca chorou porque, provavelmente, também nunca aprendeu a falar.
Foi assim que a palavra veio:
“Gay.”
Não como descrição.
Não como pergunta.
Não como reflexão sobre desejo, identidade, erotismo ou existência.
Veio como pedra.
Veio como tentativa de diminuição. Veio como se ainda estivéssemos em algum pátio escolar dos anos 1990, onde meninos eram treinados a defender sua masculinidade com a mesma profundidade filosófica de um cachorro protegendo um osso.
E a cena, se olhada com alguma distância estética, é quase teatral.
Imagine-se um salão sofisticado: paredes cobertas por livros, poltronas de couro envelhecido, uma luz âmbar caindo sobre uma mesa de madeira escura, uma taça esquecida ao lado de Freud, Lacan, Simone de Beauvoir e Nelson Rodrigues, todos silenciosamente constrangidos. Ao fundo, talvez um piano toque algo entre o jazz e a ironia.
E então, no centro desse ambiente de alta cultura, entra a frase:
“Você é gay.”
A frase entra tropeçando.
Ela queria ser punhal, mas chegou vestida de meme.
Porque chamar um homem de gay como ofensa, hoje, é menos uma agressão e mais uma confissão involuntária. Não revela muito sobre quem recebe a palavra. Revela bastante sobre quem ainda acredita que ela fere.
É como tentar humilhar alguém chamando-o de canhoto, ruivo, sensível, leitor de poesia ou usuário de hidratante.
Em certos casos, é quase um elogio mal administrado.
A palavra “gay”, quando usada como insulto, não fala da sexualidade do outro. Fala da pobreza simbólica de quem a utiliza. Fala de um repertório emocional tão estreito que, diante da frustração, só encontra a velha gaveta dos preconceitos.
É como se o inconsciente, pressionado, dissesse:
“Não tenho argumento, mas tenho um fóssil.”
E o fóssil é lançado.
A masculinidade convocada ao tribunal
A masculinidade, então, é convocada para se defender.
Mas defender-se de quê?
De ser confundido com alguém que ama de outro modo?
De ser associado a homens que desejam homens?
De não corresponder à caricatura endurecida de um macho permanentemente em campanha eleitoral pela própria virilidade?
De não bater a mão na mesa?
De não gritar?
De não precisar transformar cada conversa em campeonato de testosterona?
Há algo profundamente cômico na fragilidade da masculinidade tradicional.
Ela se apresenta como fortaleza, mas se abala com uma palavra. Diz-se sólida, mas treme diante de uma camisa rosa. Grita sua potência, mas entra em colapso se alguém sugere delicadeza. Quer ser espada, mas vive com medo de parecer flor.
E talvez seja exatamente por isso que a canção de Pepeu Gomes permanece tão provocadora quando afirma que “ser um homem feminino não fere meu lado masculino.”
A frase não apenas desafia o machismo. Ela o desorganiza.
Ela entra no templo da virilidade com sapatos brilhantes, senta na cadeira principal e pergunta:
“Masculino de quem, meu querido?”
A genialidade da frase está em desmontar a falsa oposição.
Como se o homem precisasse expulsar de si tudo que foi culturalmente chamado de feminino para provar que é homem. Como se acolhimento, ternura, sensibilidade, cuidado, escuta, vaidade, suavidade ou beleza fossem ameaças à masculinidade.
Como se um homem inteiro precisasse ser amputado para caber no figurino estreito do macho.
A masculinidade tradicional é frequentemente vendida como plenitude, mas muitas vezes é apenas mutilação bem comportada.
O menino aprende cedo que não deve chorar, não deve pedir colo, não deve demonstrar medo, não deve falar de dor, não deve brincar com o que deseja, não deve gostar de certas cores, não deve tocar certos afetos, não deve depender, não deve falhar.
E depois, adulto, é cobrado para ser emocionalmente disponível, bom pai, bom parceiro, maduro, sensível e presente.
A sociedade primeiro o empobrece.
Depois reclama que ele não sabe amar.
É uma engenharia magnífica do desastre.
A ofensa como sintoma
A psicanálise conhece bem esse terreno.
Não porque ela venha entregar respostas simples, mas porque sabe escutar os sintomas escondidos atrás das certezas.
A ofensa homofóbica, quando aparece, raramente é apenas uma opinião. Ela pode ser defesa, projeção, angústia, recusa, tentativa de controle. Às vezes, é o sujeito tentando expulsar do outro algo que não suporta reconhecer em si: vulnerabilidade, ambiguidade, desejo, dependência, inveja, medo da perda de poder.
Chamar um homem de gay como insulto é, muitas vezes, uma forma primitiva de dizer:
“Você não está ocupando o lugar que eu queria que ocupasse.”
Ou:
“Você não está obedecendo à imagem masculina que me conforta.”
Ou ainda:
“Eu preciso te reduzir para não lidar com a minha própria impotência diante de você.”
A ofensa, então, vira instrumento de reorganização imaginária.
Quando o outro escapa, eu o nomeio.
Quando o outro não cabe, eu o diminuo.
Quando o outro me frustra, eu tento devolvê-lo ao lugar de objeto controlável.
A palavra deixa de ser linguagem e vira coleira.
Mas há uma diferença fundamental entre ser atingido por uma palavra e aceitar o lugar que ela tenta impor.
O insulto só se completa quando o destinatário acredita no tribunal que o julga.
E talvez a resposta mais elegante não seja negar, justificar, provar, reagir ou montar um PowerPoint de heterossexualidade com gráficos, fotos antigas e depoimentos de testemunhas.
“Excelentíssima banca da masculinidade, venho por meio desta comprovar que gosto de mulheres desde o maternal, conforme documento anexo.”
Nada mais patético do que a masculinidade obrigada a apresentar certidão negativa de feminilidade.
A grande saída talvez seja outra:
recusar o jogo.
Quando a palavra vem de quem conhece nossa história
É claro que a palavra não é indiferente.
Palavras ferem, especialmente quando vêm de alguém com quem se partilhou intimidade, casa, história, filhos, noites, planos, contas, cansaços e ruínas.
Uma ofensa dita por um desconhecido pode passar como vento. Uma ofensa dita por quem conhece nossa biografia entra por portas que já estavam abertas.
Ela sabe onde a casa range.
Mas justamente por isso é preciso elevar a cena.
Não responder do mesmo lugar.
Quando uma ex-companheira, mãe dos filhos, usa “gay” como insulto, a questão ultrapassa o casal. Ela entra no campo da educação simbólica das crianças.
Porque filhos não escutam apenas palavras.
Escutam hierarquias.
Eles aprendem, pelo modo como os adultos se ferem, quais diferenças devem ser respeitadas e quais podem ser usadas como arma.
Uma criança que ouve “gay” como xingamento aprende, mesmo sem perceber, que algumas formas de existir devem ser rebaixadas. Aprende que masculinidade precisa ser defendida pela humilhação do outro. Aprende que o afeto pode virar munição.
E isso é grave.
Não pelo pai, apenas.
Mas pelo mundo que se ensina aos filhos.
Ser pai, nesse contexto, exige uma ética mais sofisticada do que vencer a discussão. Exige não transformar a dor em pedagogia do ressentimento. Exige dizer, ainda que silenciosamente:
“Meus filhos não precisam herdar essa pobreza.”
Eles precisam ver que um homem pode ser firme sem ser brutal, sensível sem ser fraco, masculino sem ser caricatural, amoroso sem ser submisso, vaidoso sem ser ridículo, afetivo sem ser suspeito.
Aliás, talvez uma das tarefas mais bonitas de um pai contemporâneo seja justamente essa: libertar os filhos da obrigação de performar dureza.
Ensinar que masculinidade não é ausência de feminino, mas capacidade de integrar a própria complexidade.
Ensinar que um homem não diminui quando cuida.
Não perde potência quando chora.
Não deixa de ser homem quando escuta.
Não desaba quando abraça.
Não vira menos pai porque sabe trocar fralda, pentear cabelo, lavar louça, preparar comida, pedir desculpa ou admitir medo.
O macho inseguro precisa de plateia.
O homem inteiro precisa de verdade.
E há uma diferença oceânica entre os dois.
O macho inseguro pergunta:
“Isso parece coisa de homem?”
O homem inteiro pergunta:
“Isso é justo? Isso é digno? Isso é humano?”
O macho inseguro teme ser confundido.
O homem inteiro não vive sequestrado pela opinião de quem confunde tudo.
O macho inseguro usa o feminino como ameaça.
O homem inteiro reconhece que sem o feminino — real, simbólico, psíquico, cultural — ele vira uma máquina emocionalmente analfabeta.
Há insultos que não ofendem; datam
É claro que a ironia aqui é inevitável.
Porque a acusação de “gay”, lançada como ofensa, costuma vir embrulhada numa fantasia de superioridade moral.
Quem a profere parece imaginar que está revelando uma falha secreta, quando, na verdade, revela sua própria dependência de um modelo ultrapassado.
É o equivalente afetivo de alguém entrar num debate contemporâneo defendendo que fax deve voltar como principal tecnologia da comunicação.
Há insultos que não ofendem.
Datam.
Eles dizem:
“Vim diretamente de um tempo em que se confundia diferença com defeito.”
Nesse ponto, a comédia encontra a teoria.
A masculinidade ofendida por qualquer traço de feminilidade é, no fundo, uma masculinidade mal resolvida. Precisa vigiar gestos, roupas, tons de voz, amizades, afetos e preferências porque vive sob ameaça permanente.
Não é força.
É vigilância.
Não é identidade.
É polícia interna.
Não é virilidade.
É administração ansiosa da aparência.
O sujeito não vive.
Ele fiscaliza a própria pose.
A psicanálise nos ajuda a entender que o eu é sempre mais frágil do que gostaria de parecer.
A identidade não é uma pedra. É uma montagem.
Somos feitos de identificações, perdas, desejos, fantasias, palavras recebidas, olhares incorporados, feridas antigas, defesas improvisadas.
O “eu sou homem” nunca é apenas biologia.
É narrativa.
É repetição.
É cena.
É demanda.
É ideal.
E todo ideal, quando rígido demais, vira tirano.
O ideal de masculinidade pode se tornar uma prisão tão estreita que o homem passa a vida inteira tentando provar que merece habitá-la.
Ele prova no modo de andar, no modo de falar, no modo de dirigir, no modo de beber, no modo de desejar, no modo de negar dor.
E qualquer coisa que escape desse roteiro vira ameaça.
Um elogio à beleza masculina? Perigo.
Um cuidado com a roupa? Perigo.
Uma amizade intensa? Perigo.
Uma lágrima? Estado de emergência nacional.
É cansativo ser carcereiro de si mesmo.
A pergunta que desmonta a arma
Por isso, quando alguém tenta ofender um homem chamando-o de gay, talvez a resposta mais fina seja não a defesa, mas a pergunta:
“Por que isso te parece ofensivo?”
A pergunta desmonta a arma.
Porque obriga o outro a revelar a premissa.
E a premissa é feia.
A premissa é que ser gay seria inferior.
A premissa é que a masculinidade heterossexual ocuparia um lugar mais legítimo, mais digno, mais aceitável.
A premissa é que a sexualidade pode ser usada como escada moral.
E quando essa premissa aparece à luz, ela perde a elegância que nunca teve.
Não é preciso gritar.
Basta iluminar.
A palavra preconceituosa é como barata em cozinha sofisticada: sobrevive no escuro, mas perde a imponência quando a luz acende.
Há também, evidentemente, uma dimensão narcísica nos conflitos afetivos.
Quando uma relação se rompe, ou quando o outro deixa de responder conforme nossas expectativas, a tentação de ferir pode ocupar o lugar do luto.
Em vez de elaborar a perda, ataca-se a imagem do outro.
Em vez de reconhecer a frustração, fabrica-se uma caricatura.
Em vez de dizer “isso me dói”, diz-se “você é isso”.
A acusação funciona como maquiagem da vulnerabilidade.
Nesse sentido, o insulto pode ser lido como uma cena de teatro narcísico.
A pessoa não suporta a complexidade do vínculo e tenta reduzi-lo a uma frase. Não suporta o outro como sujeito e tenta transformá-lo em rótulo. Não suporta a própria dor e tenta exportá-la como humilhação.
O ataque, então, não é força.
É sofrimento mal vestido.
E aqui cabe uma observação: compreender psicanaliticamente uma agressão não significa desculpá-la.
Explicar não é absolver.
Entender a origem simbólica de uma ofensa não transforma a ofensa em algo aceitável.
A teoria não deve servir como tapete persa para esconder grosseria. Ela serve para que a resposta não seja tão pobre quanto o ataque.
A sofisticação está em não se deixar colonizar pelo vocabulário do agressor.
Quando a lama vira argumento
Ser chamado de gay, nesse caso, pode ser transformado em ocasião de pensamento.
Não porque o insulto mereça grandeza, mas porque quem o recebe pode ter grandeza suficiente para converter a lama em argumento.
A palavra que queria reduzir vira abertura.
A tentativa de humilhação vira crítica cultural.
O ataque à masculinidade vira pergunta sobre o que, afinal, estamos chamando de homem.
E talvez a resposta seja mais simples e mais profunda do que parece.
Homem não é aquele que elimina de si tudo que foi chamado de feminino.
Homem é aquele que não precisa amputar a alma para sustentar uma imagem.
Homem é aquele que pode conter ternura e firmeza, desejo e cuidado, limite e delicadeza, presença e falta, coragem e medo.
Homem é aquele que não transforma a própria insegurança em violência simbólica contra os outros.
Um homem não precisa provar que é homem ofendendo gays, mulheres, crianças, vulneráveis ou qualquer pessoa que ame diferente.
Quando precisa fazer isso, já perdeu a melhor parte da masculinidade:
a dignidade.
A dignidade masculina não está em parecer invulnerável.
Está em não usar a vulnerabilidade alheia como brinquedo.
Não está em vencer discussões domésticas com golpes baixos.
Está em proteger o campo simbólico onde os filhos aprenderão a nomear o mundo.
Não está em parecer mais forte que a mulher.
Está em não precisar diminuir ninguém para sentir-se existente.
O feminino, aqui, não deve ser entendido de modo simplista, como “coisa de mulher”, nem como essência natural.
Trata-se de uma dimensão simbólica historicamente associada ao acolhimento, à receptividade, à escuta, à corporalidade, ao cuidado, à criação, ao vínculo.
É claro que mulheres também podem ser duras, homens também podem cuidar, e nenhuma dessas categorias pertence biologicamente a ninguém.
Justamente por isso, a canção citada no início é tão potente: ela explode a alfândega imaginária que tenta controlar quais afetos podem atravessar a fronteira do gênero.
Afinal, quem foi o fiscal que decidiu que sensibilidade precisa apresentar passaporte feminino?
Quem carimbou que cuidado é território de mulher?
Quem determinou que homem só entra no país da ternura com visto provisório e constrangimento?
Provavelmente o mesmo sujeito que acha que segurar bolsa feminina por cinco minutos compromete a estrutura metafísica do universo.
É preciso rir disso.
Rir não para minimizar o preconceito, mas para expor seu ridículo.
O preconceito gosta de se fantasiar de seriedade. Acha-se tradição, moral, bom senso, ordem natural. Mas, quando examinado com calma, frequentemente revela uma lógica infantil:
“Isso é diferente de mim, logo ameaça minha existência.”
É o narcisismo em estado de berçário.
O adulto preconceituoso muitas vezes é uma criança assustada usando vocabulário agressivo.
Não há defesa a apresentar
E o mais curioso é que a palavra “gay”, usada como ofensa, também tenta produzir uma inversão.
Em vez de o agressor responder por sua violência verbal, o ofendido é convocado a provar sua normalidade.
É uma armadilha.
O ataque cria um tribunal e exige defesa.
Mas aceitar esse tribunal é legitimar suas regras.
Por isso, a resposta mais política, mais ética e mais elegante pode ser:
“Não há nada de ofensivo em ser gay. Ofensivo é usar isso como ofensa.”
Essa frase recoloca cada coisa em seu lugar.
Ela não nega.
Não confirma.
Não entra no mérito da sexualidade porque a sexualidade não está em julgamento.
Ela desloca a questão para onde ela deve estar:
o preconceito embutido no uso da palavra.
Essa resposta também protege os filhos.
Porque ensina que ninguém deve ser diminuído por sua orientação sexual.
Ensina que diferenças não são armas.
Ensina que a masculinidade do pai não depende da inferiorização de ninguém.
Ensina que uma casa, mesmo depois da separação, pode tentar não reproduzir o pior da cultura.
E, convenhamos, há algo profundamente elegante em não se desesperar diante de uma acusação mal formulada.
O desespero faria o jogo do insulto.
A serenidade o desarma.
A ironia o embaraça.
A teoria o enterra com honras acadêmicas.
O sujeito que tenta ofender chamando o outro de gay espera escândalo, defesa, raiva, contra-ataque.
Mas quando recebe análise, fica sem saber onde colocar a própria grosseria.
É como alguém que joga uma pedra e recebe de volta uma tese com bibliografia.
A pedra se sente inadequada.
A masculinidade que não precisa provar nada
No fim, talvez esse episódio revele algo maior do que uma briga pessoal.
Ele mostra como ainda carregamos restos de uma cultura na qual a masculinidade precisa ser policiada, a feminilidade precisa ser subordinada e a homossexualidade ainda é usada como ameaça.
Mostra como os conflitos íntimos são atravessados por discursos sociais antigos.
Mostra como, dentro de uma frase aparentemente banal, pode morar um sistema inteiro de medo, hierarquia e ignorância.
Mas também mostra outra coisa:
que é possível responder de outro lugar.
É possível não aceitar o insulto como insulto.
É possível dizer:
Se a intenção era me diminuir, a frase falhou.
Se a intenção era questionar minha masculinidade, ela revelou apenas uma ideia pobre de masculinidade.
Se a intenção era ferir, produziu reflexão.
Se a intenção era me colocar contra os gays, não conseguiu.
Se a intenção era me fazer provar que sou homem, chegou tarde: não estou inscrito nesse vestibular.
A masculinidade que precisa fazer prova oral todos os dias já está reprovada em silêncio.
Ser homem, para mim, não é viver em guerra contra o feminino.
Não é temer a delicadeza.
Não é transformar a sexualidade alheia em piada.
Não é endurecer a voz para esconder fragilidade.
Não é usar filhos, ex-companheiras, disputas ou dores como palco para reafirmar poder.
Ser homem é sustentar presença.
É cuidar quando se está cansado.
É responder quando seria mais fácil reagir.
É impor limites sem perder a humanidade.
É não confundir firmeza com crueldade.
É saber que uma palavra dita diante dos filhos pode educar ou deformar.
É reconhecer que a virilidade mais rara talvez seja a capacidade de não devolver violência quando a violência parece oferecer aplauso imediato.
A frase veio como insulto.
Mas pode sair como artigo.
Veio baixa.
Saiu vestida de terno, sentou-se na biblioteca, pediu um café, abriu Freud na página certa e ainda deixou Pepeu Gomes tocando ao fundo.
Porque, no fundo, talvez a melhor resposta a quem usa “gay” como ofensa seja esta:
minha masculinidade não é tão frágil a ponto de se ferir com a existência do outro.
Meu lado masculino não precisa declarar guerra ao feminino.
Minha dignidade não depende de humilhar gays.
E minha inteligência não cabe mais no vocabulário de quem ainda acha que preconceito é argumento.
Ser chamado de gay, afinal, não me diminui.
O que diminuiria seria achar que isso diminui alguém.
E, se a masculinidade precisa ser defendida com preconceito, talvez não seja masculinidade.
Talvez seja apenas medo usando perfume caro.
No meu caso, prefiro outra cena:
uma sala bonita, uma luz baixa, uma estante cheia, um silêncio firme, uma ironia bem passada e a consciência tranquila de quem sabe que a melhor resposta não é provar que é homem.
É mostrar que não precisa provar. Por Deivede Ferreira, fundador da ABRAFP — Associação Brasileira de Filosofia e Psicanálise.




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